Grupo de Trabalho propõe nova regulamentação para ordenar fluxo de corredores no campus Butantã

Por Catarina Bacci e Gabriel Alegreti
A cena é recorrente nos sábados de manhã na Cidade Universitária. Grupos numerosos de corredores e grandes eventos esportivos têm causado uma série de conflitos entre uspianos e atletas sem vínculos com a USP. A comunidade universitária critica a obstrução da circulação, o acúmulo de resíduos e o barulho gerados pelos praticantes. A novidade é a instituição de um Grupo de Trabalho (GT) para encontrar soluções.
Com o boom das corridas de rua, o problema tem piorado. Não há dados oficiais sobre o assunto, mas diversos entrevistados ouvidos pelo Jornal do Campus relatam um fluxo cada vez maior de esportistas no campus. “Aumentou exponencialmente”, afirma Raquel Rolnik, prefeita do Campus da Capital. Para ela, o regulamento de 2017 sobre a prática esportiva na USP “não está mais dando conta”.
O documento não previa o crescimento intenso do número de praticantes dos últimos anos. “A maneira como as assessorias estão no campus é um problema sério, porque a atividade se dá de forma completamente desorganizada”, afirma Raquel.
Os moradores do Conjunto Residencial da USP (Crusp) são os mais afetados, em especial os que moram próximos à Raia Olímpica. “É muito recorrente a galera ser acordada às seis, sete horas da manhã com caixa de som ou com megafone de fim de semana”, diz Vitor Aquino, vice-presidente da associação dos moradores do Crusp (Amorcrusp). Para a entidade, a concentração das assessorias perto do conjunto residencial prejudica a função da universidade: “atrapalha estudar no final de semana, por exemplo”. Raquel Rolnik concorda: “O campus não é um parque esportivo, ele é um espaço destinado prioritariamente às atividades de ensino, pesquisa e extensão”.
No centro da polêmica estão as assessorias, que oferecem aulas pagas com treinadores. Algumas delas montam estruturas, circulam por áreas não permitidas e usam caixas de som em volume alto. Além dessas infrações, há o uso indevido do nome e dos recursos públicos da Universidade para benefício particular. O JC apurou que a prefeitura notificou ao menos um desses profissionais por se apropriar da marca USP para vender seus serviços dentro do campus.
Douglas de Melo, diretor da Associação de Treinadores de Corrida de Rua de São Paulo (ATC-SP), afirma que a principal fonte dos problemas é a falta de conhecimento e respeito às normas por parte dos corredores. “É importante reforçar o regulamento do campus, principalmente para os iniciantes que não tenham, talvez, toda essa informação”. Hoje, a ATC-SP representa 58 treinadores que atuam na USP com suas empresas. Eles fazem parte de cerca de 200 assessorias esportivas presentes no campus, de acordo com a estimativa extraoficial da associação.
Os esportistas também têm suas queixas, e a principal delas é a falta de banheiros. Katia Maldonado, formada em Educação Física pela USP e treinadora de corrida no campus desde 2004, lembra de ter presenciado uma fila de 20 pessoas para usar uma única cabine. “O banheiro é algo crítico!”
Para conciliar as demandas, críticas e sugestões dos moradores, corredores e treinadores, a Prefeitura realizou, no dia 14 de junho, uma audiência pública sobre a prática esportiva nos espaços do campus. Vitor esteve presente na reunião e levantou que os universitários não são contrários à presença da comunidade externa, mas que ela deve ocorrer com respeito aos estudantes.
A audiência resultou na criação de um Grupo de Trabalho (GT), em agosto, para a regulamentação de práticas esportivas nas áreas comuns do Campus Capital-Butantã. Entre os membros, estão representantes da Prefeitura do Campus; funcionários e docentes; alunos, moradores do Crusp; Federação Paulista de Atletismo; assessorias esportivas e praticantes esportivos independentes. Segundo o documento, esse grupo surge em decorrência da “crescente apropriação das áreas comuns do campus” por parte de praticantes, assessorias esportivas e empresas.
As discussões para a nova regulamentação envolvem propostas de medidas como “evitar a obstrução de faixas de ônibus e demais vias”; proibir barulhos excessivos nas proximidades das moradias e áreas de estudo; e regular o uso de espaços verdes, coibindo a montagem de tendas e estruturas que danifiquem essas áreas. As questões dos resíduos, da infraestrutura e da fiscalização por meio do credenciamento de usuários também serão abordadas nesses debates. Já a cobrança de taxas não aparece no escopo do trabalho.
A atuação do GT traz pontos em comum com o novo Plano Diretor Participativo do Campus Butantã, que propõe a delimitação de uma área de uso compartilhado entre a comunidade externa e uspiana, chamada “Campus Parque”. O perímetro envolveria trechos da Praça do Relógio, do Centro de Práticas Esportivas da USP e a Raia Olímpica. Para moradores do Crusp, o ideal seria buscar outro espaço. Marina Brandão, que mora próxima à Raia, declarou: “Não vejo nenhum ponto positivo em ter pessoas em bando correndo, gritando e sujando a fachada da minha casa. A USP é enorme, eles podem muito bem correr em outros lugares”.
É muito recorrente a galera ser acordada às seis, sete horas da manhã com caixa de som ou com megafone de fim de semana”
Vitor Aquino, vice-presidente da associação dos moradores do Crusp (Amorcrusp)
