Evento climático expõe falhas na preparação da USP para calamidades climáticas e levanta questionamentos sobre como os campi planejam lidar com o futuro da emergência ambiental

Por Bernardo Medeiros, Bárbara Araújo, Tauane Ybarra e Victor Gama
No dia 24 de julho, a cidade de Ribeirão Preto foi atingida por um forte temporal, com rajadas de vento que chegaram a 120 quilômetros por hora. O evento meteorológico causou impactos na cidade e no campus da USP. A queda de árvores de grande porte causou o interrompimento do fornecimento de energia elétrica, ruas e passagens ficaram bloqueadas e houve danos às instalações da Universidade.
O Jornal do Campus contatou as prefeituras dos campus da USP espalhados pelo estado para entender se a universidade tem preparo para lidar com eventos climáticos extremos. A única que apresentou um plano concreto foi a do campus de Pirassununga.
Quinze dias depois do temporal, o JC conversou com os estudantes Eloísa Neumann (FDRP) e Lucas Abate, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP). Segundo eles, os principais danos foram na Biblioteca Central, que seguia com duas de três entradas interditadas, no Centro de Educação Física, Esportes e Recreação (CEFER) – com danos aos ginásios, piscinas e áreas externas – e no Conjunto Residencial dos Estudantes Universitários (CREU), que teve áreas destelhadas.
A comunicação foi escassa. Os estudantes relatam que o único comunicado foi o aviso de que as aulas retomariam normalmente na data prevista para o início do segundo semestre letivo (3 de agosto).
Lucas conta que, na sua faculdade, ainda não é possível passar pelas rotas convencionais: “Os caminhos estão cheios de árvores que ainda não foram retiradas”. Ainda no fim de junho, a Liga das Atléticas Unificadas da USP de Ribeirão Preto (LAURP) organizou um mutirão para limpeza do campus. Segundo os alunos, houve uma mobilização mais imediata para revitalização da moradia estudantil, mas o restante do campus ainda carece de manutenções.
“A impressão que passa é que, agora que a Universidade voltou a funcionar, tornar o espaço completamente funcional não é uma prioridade”
– Eloísa Neumann

Contatada durante cinco dias seguidos por e-mail, a Prefeitura do Campus de Ribeirão Preto não se manifestou. Quando contatada por telefone, uma funcionária da Prefeitura relatou que a responsável pelo atendimento à imprensa se encontrava fora da cidade. A ligação foi feita em uma segunda-feira.
De acordo com a Prefeitura do Campus Butantã, em 2025 foram realizadas mais de 4.200 podas – o campus têm mais de 33 mil árvores. A Prefeitura do Campus de Piracicaba afirmou enfrentar situações emergenciais com o apoio da Polícia Militar e da “comunidade local” – as empresas Carterpillar e Hyundai, produtoras de máquinas agrícolas. A Prefeitura do Campus Bauru também disse realizar ações preventivas.
O campus Pirassununga tem medidas mais específicas. A Prefeitura declarou ter um Plano de Preparação de Eventos Climáticos Extremo, com o monitoramento dos níveis de água do ribeirão Pindaíba, racionamento planejado de água, preparação de equipes para prevenção e combate à incêndios e infraestrutura elétrica reforçada. Entretanto, afirmou que é necessário avançar na delimitação do orçamento próprio do Plano.
Questionadas por e-mail e telefone, as Prefeituras dos Campi de Lorena e São Carlos não se manifestaram. As Prefeituras dos Campi USP Leste e Quadrilátero da Saúde e Direito afirmaram não terem competência para responder aos questionamentos, remetendo à Superintendência de Gestão Ambiental (SGA). Contatada, a SGA não apresentou um plano comum a todas unidades da USP.
As respostas revelam a fragmentação dos planos de contingência a eventos climáticos extremos. Enquanto a maioria das unidades realizam ações preventivas e podas regulares, dos 10 campi, apenas Pirassununga apresentou um plano específico para situações emergenciais.
Há queixas de falta de coordenação. Em nota, a Prefeitura do Campus Piracicaba ainda afirmou que “seria importante a Universidade ter um planejamento mais global, estratégico e planos de contingência com seus protocolos, como um compromisso institucional, assim como previsão de recursos de capacitação de pessoal em todos os campi.”

O que pode ser feito?
Amarílis Gallardo, professora da Escola Politécnica da USP e pesquisadora na área de planejamento ambiental, alertou sobre a importância de considerar os efeitos de eventos extremos, apontando que as mudanças climáticas aumentam a intensidade de fenômenos naturais já presentes em espaços urbanos.
A professora atribui ao plano diretor dos campi da USP a responsabilidade do preparo a tais eventos. “Ele vai regularizar, disciplinar o uso do espaço físico, cuidar da manutenção de edifícios e reformas das áreas verdes”, afirma. Gallardo ainda chamou atenção à necessidade de olhar para as regiões que estão propensas a maior incidência de eventos climáticos.
*Editado por Sofia Matos
