{"id":14680,"date":"2011-09-01T16:42:51","date_gmt":"2011-09-01T19:42:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/?p=14680"},"modified":"2012-03-21T10:14:11","modified_gmt":"2012-03-21T13:14:11","slug":"2011-riots-inglaterra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2011\/09\/2011-riots-inglaterra\/","title":{"rendered":"2011, Riots, Inglaterra"},"content":{"rendered":"<h6>An\u00e1lises e teorias sobre os movimentos de rua que abalaram a terra da Rainha<\/h6>\n<h5>Riots\u2019n\u2019what?<\/h5>\n<p>Ningu\u00e9m pensaria que um homem de 29 anos morto no dia 4 de agosto num sub\u00farbio de Londres causaria tanto rebuli\u00e7o. Mark Duggan, morador de Tottenham, no norte da capital inglesa, foi assassinado a tiros por policiais depois de o minit\u00e1xi em que viajava ser interceptado em uma j\u00e1 planejada opera\u00e7\u00e3o para prend\u00ea-lo, por crime com armas. De fato, Duggan estava portando um rev\u00f3lver carregado \u00e0quela hora, mas laudos de alguns dias depois afirmaram que ele n\u00e3o a usou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da j\u00e1\u00a0esperada rea\u00e7\u00e3o da comunidade por causa da morte, o Independent Police Complaints Comission (IPCC) e o governo ingl\u00eas receberam muito mais depois de sua falha em reportar os fatos de modo confi\u00e1vel (eles \u201cinadvertidamente\u201d deixaram a entender que havia ocorrido uma troca de tiros). Na madrugada de s\u00e1bado para domingo, confrontos com a pol\u00edcia assustaram moradores da \u00e1rea, 55 pessoas foram presa por viol\u00eancia, e v\u00e1rias lojas saqueadas (o chamado \u201clooting\u201d, em ingl\u00eas). De acordo com apura\u00e7\u00e3o da BBC, at\u00e9 agora 3100 pessoas foram presas nos tumultos, tendo sido 1100 j\u00e1 indiciadas por roubo, viol\u00eancia ou desordem.<\/p>\n<p>O que havia come\u00e7ado como um protesto pac\u00edfico em frente \u00e0\u00a0esta\u00e7\u00e3o de pol\u00edcia se transformou nos chamados \u201criots\u201d da Inglaterra, que ocorreram, em massa, at\u00e9 o dia 10 de agosto (<a title=\"BBC: England riots: Maps and timeline \" href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/news\/uk-10321233\" target=\"_blank\">veja uma timeline dos acontecimentos feita pela BBC<\/a>). Representaram um fen\u00f4meno in\u00e9dito em d\u00e9cadas. Dividiram opini\u00f5es e circundaram muitas teorias. A seguir, as informa\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises mais interessantes sobre os acontecimentos que abalaram a na\u00e7\u00e3o do fish \u2018n\u2019 chips desde o come\u00e7o do m\u00eas.<\/p>\n<h5>O novo megafone<\/h5>\n<p>A fam\u00edlia de Duggan, desde o come\u00e7o, desaprovou a viol\u00eancia. Na p\u00e1gina do Facebook criada para o tributo a Mark, havia pedido que as pessoas postassem v\u00eddeos e fotos das viaturas incendiadas, para \u201cmandar a mensagem de por que isso se tornou um\u00a0<em>riot<\/em>\u201d. De s\u00e1bado para segunda, por\u00e9m, deu um tom mais conciliat\u00f3rio \u00e0 medida que os\u00a0<em>riots<\/em> se alastravam para regi\u00f5es pr\u00f3ximas: \u201cse as pessoas se importassem com essa p\u00e1gina de tributo, parariam de incendiar &amp; saquear. Voc\u00eas que encorajam isso, bom, precisam crescer. A fam\u00edlia de Mark n\u00e3o precisa disso!\u201d.<\/p>\n<p>O come\u00e7o da divulga\u00e7\u00e3o pode at\u00e9\u00a0 ter sido no Facebook, mas a comunica\u00e7\u00e3o depois se virou para outro meio: O BlackBerry Messenger (BBM). O servi\u00e7o de celular foi o m\u00e9todo favorito para planejar as a\u00e7\u00f5es entre os insurgentes desde o primeiro dia de tumultos. Vantagens? 1. \u00c9 de gra\u00e7a entre os usu\u00e1rios do BlackBerry. 2. \u00c9 uma rede social privada em que quase todas as mensagens s\u00e3o criptografadas e assim irrastre\u00e1veis por autoridades. 3. \u00c9 usado por 37% dos jovens brit\u00e2nicos, fato que, aliado \u00e0\u00a0 3. Ferramenta one-to-many (permite enviar mensagens a todos de sua rede social), faz do BBM melhor que Twitter ou SMS.<\/p>\n<p>Exemplo de mensagem:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cI don&#8217;t care what ends you&#8217;re from, we&#8217;re personally inviting you to come and get it in. Police have taken the piss for too long and to be honest I don&#8217;t know why its taken so long for us make this happen. (\u2026) Everyone meet at 7 at stratford park and let&#8217;s get rich.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Ou:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Everyone from all sides of London meet up at the heart of London (central) OXFORD CIRCUS!!, Bare SHOPS are gonna get smashed up so come get some (free stuff!!!) fuck the feds we will send them back with OUR riot! &gt;:O Dead the ends and colour war for now so if you see a brother&#8230; SALUT! if you see a fed&#8230; SHOOT!&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>A Resarch in Motion (RIM), empresa criadora do BlackBerry, pode ser legalmente ordenada a entregar detalhes de usu\u00e1rios suspeitos de atividade ilegal \u00e0 pol\u00edcia. No entanto, j\u00e1 insistiu que n\u00e3o \u00e9 capaz de decodificar as mensagens enviadas. De qualquer modo, o governo amea\u00e7ou derrubar as redes sociais do pa\u00eds e fechou acordos com a empresa para controlar o servi\u00e7o \u2013 medida que, quando adotada no Egito, L\u00edbia e S\u00edria, argumentaram usu\u00e1rios no Youtube, foi recha\u00e7ada pelo pr\u00f3prio governo ingl\u00eas.<\/p>\n<h5>Anarchy in the UK?<\/h5>\n<p>Logo que os\u00a0<em>riots<\/em> come\u00e7aram, muito se disse sobre os saques serem trabalho de gangues organizadas, ou mesmo uma rede delas em conjunto.<\/p>\n<p>Gavin Knight, escritor sobre crime em Londres, para o <a title=\"Guardian: London riots are not the work of organised gangs\" href=\"http:\/\/www.guardian.co.uk\/commentisfree\/2011\/aug\/09\/london-riots-gangs\" target=\"_blank\">Guardian<\/a>, defendeu que nenhuma das duas hip\u00f3teses era verdade. L\u00e1, os membros de gangues crescem junto, s\u00e3o muito pr\u00f3ximos, n\u00e3o atacam os da pr\u00f3pria comunidade. Protegem-se contra rivais do norte ou do leste. E n\u00e3o apresentavam o perfil de membros j\u00e1 experientes: estavam envolvendo jovens cada vez mais jovens nas atividades e n\u00e3o estariam apenas interessados em t\u00eanis e TVs, como foi percebido \u2013 teriam roubado bancos e os cofres das lojas. A teoria de uma rede de gangues em a\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 improv\u00e1vel, pois membros rivais que entrassem em Tottenham estariam arriscando repres\u00e1lias, pois n\u00e3o deixariam de se atacar \u201capenas\u201d porque estava rolando um tumulto.<\/p>\n<p>No fim, os jovens n\u00e3o tinham nada em comum a n\u00e3o ser pelo fato de estarem jogando pedras na pol\u00edcia e procurando por exalta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14801\" aria-describedby=\"caption-attachment-14801\" style=\"width: 480px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14801 \" title=\"Carro incendiado e graffitado \u201cWelcom to Hackney\u201d, bairro londrino (foto: Alastair)\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/jc-Carro-incendiado-e-graffitado-Welcom-to-Hackney-9-Agosto-Alastair.jpg\" alt=\"Carro incendiado e graffitado \u201cWelcom to Hackney\u201d, bairro londrino (foto: Alastair)\" width=\"480\" height=\"360\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14801\" class=\"wp-caption-text\">Carro incendiado e graffitado \u201cWelcom to Hackney\u201d, bairro londrino (foto: Alastair)<\/figcaption><\/figure>\n<h5>Fa\u00edscas de um lado e de outro<\/h5>\n<p>Exalta\u00e7\u00e3o essa que atingiu propor\u00e7\u00f5es um tanto quanto incontrol\u00e1veis. Al\u00e9m das \u00f3bvias perdas materiais e financeiras para o com\u00e9rcio, para os moradores, e, ainda, para as seguradoras \u2013 a Associa\u00e7\u00e3o de Seguradores Brit\u00e2nicos est\u00e1 supondo \u201cdezenas de milhares de libras\u201d em pagamentos \u2013 as perdas humanas tamb\u00e9m aparecem. O jornais ingleses reportaram cinco pessoas mortas e dezenas de feridos.<\/p>\n<p>Um caso de agress\u00e3o ficou famoso pela internet: um malaio chamado Mohd Asyraf Raziq Rosli foi comprar a comida que quebraria seu jejum do Ramad\u00e3 quando foi atacado por um grupo de saqueadores. Espancado e ca\u00eddo no ch\u00e3o, algumas pessoas vieram, aparentemente, ajud\u00e1-lo. Nessa hora do v\u00eddeo, pensamos que o mundo ainda tem salva\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que essas mesmas pessoas abrem a mochila do malaio e saem andando com o que quer que estivesse dentro.<\/p>\n<p><object width=\"480\" height=\"270\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/6Gex_ya4-Oo?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0\" \/><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"480\" height=\"270\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/6Gex_ya4-Oo?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0\" allowfullscreen=\"true\" allowscriptaccess=\"always\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>Caso dois: Darcus Howe, um imigrante indiano, morador de um dos bairros pobres em que os protestos foram mais violentos, \u00e9 entrevistado pela rede estatal BBC. Ele diz que se os l\u00edderes pol\u00edticos tivessem ouvido os jovens negros e brancos, saberiam que alta estava para acontecer no pa\u00eds. A entrevistadora, ent\u00e3o, o interrompe e pergunta se ele n\u00e3o condena os atos de viol\u00eancia em seu bairro. Ele responde que o preocupa o fato de Duggan ter sido morto a metros de sua casa. A rep\u00f3rter continua tentando mudar o foco da entrevista e pergunta se isso e a discrimina\u00e7\u00e3o contra negros \u00e9 motivo para \u201csair causando a desordem que vimos nos \u00faltimos dias\u201d. Ele responde que \u00e9 uma insurrei\u00e7\u00e3o como a que est\u00e1 ocorrendo na S\u00edria. Por fim, a entrevistadora d\u00e1 a entender que Howe faria parte dos grupos arruaceiros, o que causa completa indigna\u00e7\u00e3o por parte dele, que pede \u201cmais respeito com um velho negro imigrante da \u00cdndia\u201d.<\/p>\n<p>A entrevista mostra uma vis\u00e3o diferente sobre os\u00a0<em>riots<\/em>: n\u00e3o defende a viol\u00eancia, mas traz \u00e0 tona discrimina\u00e7\u00e3o contra imigrantes e segmentos de algumas classes sociais \u2013 e acaba se transformando em um v\u00eddeo viral pelo mesmo motivo que Howe repudiava.<\/p>\n<p><object width=\"480\" height=\"300\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/mzDQCT0AJcw?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0\" \/><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"480\" height=\"300\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/mzDQCT0AJcw?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0\" allowfullscreen=\"true\" allowscriptaccess=\"always\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>E nem \u00e9\u00a0Howe o \u00fanico de uma classe espec\u00edfica que n\u00e3o defende a viol\u00eancia. Outra que bombou em visualiza\u00e7\u00f5es na internet foi uma mulher que grita no v\u00eddeo:<\/p>\n<blockquote><p>This is a fucking realtiy. Allow out burning peoples property.\u00a0Allow out burning peoples shops that they work so hard to start thier business. Do you understand? That lady is trying to make her busines work and you lot wana go and burn it up? For what? To say your war-ing and your bad man? This is about a man who got shot in Tottenham. This anit about having fun on the road and burning up the place. Get it real black people. Get real. Do it for a cause. If your fighting for a cause then fight for a fucking cause. You lot piss me the fuck off! I&#8217;m shamed to be a Hackney person. Because we are not all gathering together and fighting for a cause. We are running out of Footlocker and theifin shoes. Dirty thiefs ya know. Tut.<\/p><\/blockquote>\n<p><object width=\"480\" height=\"390\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/DFzGgYQ6hJI?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0\" \/><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"480\" height=\"390\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/DFzGgYQ6hJI?version=3&amp;hl=pt_BR&amp;rel=0\" allowfullscreen=\"true\" allowscriptaccess=\"always\"><\/embed><\/object><\/p>\n<h5>V\u00e1lvula de escape \u2013\u00a0\u201cYouth riots\u201d<\/h5>\n<p>Frente a essas a\u00e7\u00f5es um tanto energ\u00e9ticas dos jovens, logo surgiram hip\u00f3teses de o que estaria por tr\u00e1s de seus impulsos.<\/p>\n<p>Os clubes da juventude seriam uma delas. Ali\u00e1s, a falta dos clubes. Em fevereiro deste ano, <a title=\"BBC: Unite union stages rally against youth service cuts\" href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/news\/uk-12438325\" target=\"_blank\">um quarto dos servi\u00e7os para os jovens sofreria cortes durante o ano seguinte de 30% no or\u00e7amento<\/a>, representando \u20a4100 milh\u00f5es e tr\u00eas mil trabalhos a menos. O Departamento da Educa\u00e7\u00e3o disse que cada regi\u00e3o (\u201ccouncil\u201d) deve decidir onde gastar nesses servi\u00e7os e que cada uma tamb\u00e9m deve trabalhar mais junto da comunidade, grupos volunt\u00e1rios e setor privado para criar servi\u00e7os acess\u00edveis.<\/p>\n<p>Apesar disso, os cortes se mostraram de outro jeito. O an\u00fancio provocou protestos pelo Reino Unido e teses como a de Gavin Knight corroboraram para isso. Segundo declara\u00e7\u00e3o para o <em>Guardian<\/em>, eram os clubes que ofereciam atividades culturais e esportivas para jovens de \u00e1reas pobres e desestruturadas. \u201cSem trabalho ou aspira\u00e7\u00f5es sociais, os clubes da juventude eram um meio para distra\u00ed-los. Em regi\u00f5es carentes com alto povoamento, jovens perturbados n\u00e3o mais precisavam procurar um senso de identidade na vida violenta das ruas. A m\u00eddia faz um estere\u00f3tipo deles e esse distanciamento somente agrava o problema\u201d.<\/p>\n<h5>V\u00e1lvula de escape \u2013\u00a0\u201cShopping riots\u201d<\/h5>\n<p>Outras tr\u00eas hip\u00f3teses, <a title=\"BBC: The UK riots: the psychology of looting\" href=\"http:\/\/www.guardian.co.uk\/commentisfree\/2011\/aug\/09\/uk-riots-psychology-of-looting\" target=\"_blank\">apresentadas por Zoe Williams, colunista do <em>Guardian<\/em><\/a>, \u00a0situam-se em tr\u00eas \u00e2ngulos: 0\u02da, 180\u02da e 90\u02da.<\/p>\n<p>No \u00e2ngulo 0\u02da, a posi\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios pol\u00edticos &#8211; n\u00e3o somente conservativos. Consideram os protestos como pura criminalidade, sem prop\u00f3sito maior e com a pris\u00e3o como destino certo. Uma vis\u00e3o autorit\u00e1ria disso seria a de que se trata de uma gera\u00e7\u00e3o com um falso senso de direito, criado pela cultura da v\u00edtima, e uma leni\u00eancia geral, fruto do sistema de justi\u00e7a criminal. Foram roubos glorificados, conduzidos por pessoas que clamam n\u00e3o pelo que podem fazer por elas mesmas, mas pelo que outros deveriam ter feito por elas.<\/p>\n<p>Em 180\u02da\u00a0est\u00e1\u00a0uma vis\u00e3o muito mais liberal. Camila Batmanghelidjh expressou, pelo The Independent, que os eventos s\u00e3o uma resposta humana natural \u00e0 brutalidade da pobreza. Retrata uma vida dram\u00e1tica, humilhante, indigna. De pessoas sem nada numa sociedade rica de possess\u00f5es.\u00a0 Pessoas condenadas a uma escurid\u00e3o onde sua humanidade n\u00e3o \u00e9 valorizada o suficiente para ser ajudada.<\/p>\n<p>Williams, em particular, defende o \u00e2ngulo de 90\u02da, mais pragm\u00e1tico. Os itens saqueados tinham uma peculiaridade: se fossem comida, as pessoas poderiam simpaticamente enxergar uma causa nobre; se fossem itens de luxo, seria uma causa mais cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o a pol\u00edtica. Mas n\u00e3o era isso: os\u00a0<em>rioters<\/em> roubavam t\u00eanis e laptops. Em Clapham Junction, a \u00fanica loja intocada foi uma livraria, e numa drogaria, muito de um rem\u00e9dio digestivo foi levado.\u00a0 Os grupos indo de shopping para shopping, correndo para entrar e sair de lojas de artigos esportivos antes que os policiais chegassem. Lojas pequenas, sem seguro, saqueadas pelas bebidas e cigarros.<\/p>\n<p>Ou seja, os\u00a0<em>riots<\/em> se transformaram em\u00a0<em>shopping riots<\/em>, como Williams nomeia, caracterizados pelas escolhas de consumo dos participantes. \u201c\u00c9 o que acontece quando as pessoas n\u00e3o t\u00eam nada, t\u00eam seus narizes esfregados em coisas que n\u00e3o conseguem comprar e que n\u00e3o t\u00eam nenhum motivo para acreditar que um dia conseguir\u00e3o comprar\u201d, diz a colunista. Alex Hiller, um expert em marketing e consumo da Nottingham Business School, concorda com ela: \u201cEles provavelmente est\u00e3o se rebelando contra um sistema que os nega suas recompensas porque n\u00e3o podem pagar por elas\u201d.<\/p>\n<p>Zygmunt Bauman, considerado um dos mais influentes soci\u00f3logos da atualidade, tamb\u00e9m defende a hip\u00f3tese do consumismo em sua <a title=\"Social Europe Journal: Interview \u2013 Zygmunt Bauman on the UK Riots\" href=\"http:\/\/www.social-europe.eu\/2011\/08\/interview-zygmunt-bauman-on-the-uk-riots\/\" target=\"_blank\">entrevista para o Social Europe Journal<\/a>: \u201cEsse campo de minas em particular foi criado pela combina\u00e7\u00e3o de consumismo e crescente desigualdade. Foi uma rebeli\u00e3o n\u00e3o de famintos ou de minorias, mas de consumidores desqualificados e humilhados pela exposi\u00e7\u00e3o dos ricos para os quais t\u00eam acesso negado. Esses\u00a0<em>riots<\/em> s\u00e3o mais bem entendidos como a revolta de consumidores frustrados\u201d.<\/p>\n<p>E continua: \u201cEles n\u00e3o se rebelaram para uma mudan\u00e7a na sociedade ou contra o consumismo. Eles fizeram uma frustrada tentativa de participar, ainda que por um momento, do grupo de consumidores dos quais foram exclu\u00eddos. Uma explos\u00e3o espont\u00e2nea de frustra\u00e7\u00e3o acumulada que somente pode ser explicada em termos de \u2018por causa de\u2019, n\u00e3o de \u2018para que\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Causas econ\u00f4micas tamb\u00e9m s\u00e3o o cerne da quest\u00e3o para Heni Ozi Cukier, cientista pol\u00edtico entrevistado para esta se\u00e7\u00e3o. Para ele, a crise econ\u00f4mica de 2008 nos EUA e no mundo gerou uma crise pol\u00edtica fruto da insatisfa\u00e7\u00e3o do povo com o governo. E ent\u00e3o aparece a terceira crise, que arranha a legitimidade do sistema pol\u00edtico. Em Londres, as pessoas estavam t\u00e3o descrentes em rela\u00e7\u00e3o ao sistema, que passaram a considerar a ordem como mentira, como desonesta e incompetente. O norte deles passou a ser o de \u201cfazer o que eu quero\u201d contra o privil\u00e9gio de poucos e de levar isso \u00e0s ruas. Os\u00a0<em>riots<\/em> foram um conjunto de rea\u00e7\u00f5es instintivas, produtos da psicologia social que retirava deles sua identidade e os transformava em\u00a0<em>crowds<\/em>, sem saber explicar direito seus motivos. Foram reflexos que n\u00e3o previam uma movimenta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, mas que se aproveitaram de costumes j\u00e1 intr\u00ednsecos, como o uso de redes sociais.<\/p>\n<p>No entanto, para Leandro Piquet, professor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, ainda n\u00e3o estamos suficientemente distantes dos eventos para estabelecer conex\u00f5es entre os riots e a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f4mica ou de identidade, por exemplo. O que podemos agora \u00e9 observar as conex\u00f5es que j\u00e1 foram feitas pelas investiga\u00e7\u00f5es policiais e governamentais, e tentar entender o que pode ser feito para controlar e, talvez, o que fica de li\u00e7\u00e3o para frente. Tamb\u00e9m afirma que \u00e9 dif\u00edcil imaginar manifesta\u00e7\u00f5es dessa magnitude perdurarem sem algum tipo de organiza\u00e7\u00e3o, como aconteceu agora, diferentemente dos <em>riots<\/em> de Chicago nos anos 60.<\/p>\n<h5>Riots\u2019n\u2019questions<\/h5>\n<p>Provavelmente esses e outros motivos fizeram parte do rol de sentimentos que levaram os jovens desenfreadamente para as ruas. Os\u00a0<em>riots<\/em> j\u00e1 terminaram, mas sobram todas as arestas n\u00e3o aparadas: como lidar com os novos \u2013 e muitos &#8211; presos? Como isso afetar\u00e1 a imagem do primeiro ministro David Cameron? Como se dar\u00e1 a discuss\u00e3o entre governo e pol\u00edcia sobre estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o? A educa\u00e7\u00e3o deve passar por uma reformula\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 uma sequ\u00eancia de perguntas ainda sem respostas, mas v\u00e1rias an\u00e1lises surgem todo dia com o intuito de tentar destrinchar todo o espectro do fen\u00f4meno ingl\u00eas. Aqui foram apresentadas algumas facetas do que aconteceu a ainda acontece na terra da Rainha, e, agora, na terra do\u00a0<em>riots<\/em>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14827\" aria-describedby=\"caption-attachment-14827\" style=\"width: 480px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14827 \" title=\"Loja Carpet Store ap\u00f3s ser incendiada no dai 6 de agosto (foto: Alan Stanton)\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/jc-Carpetright_store_after_Tottenham_riots3.jpg\" alt=\"Loja Carpet Store ap\u00f3s ser incendiada no dia 6 de agosto (foto: Alan Stanton)\" width=\"480\" height=\"360\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14827\" class=\"wp-caption-text\">Loja Carpet Store ap\u00f3s ser incendiada no dia 6 de agosto (foto: Alan Stanton)<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"An\u00e1lises e teorias sobre os movimentos de rua que abalaram a terra da Rainha Riots\u2019n\u2019what? Ningu\u00e9m pensaria que um homem de 29 anos \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2011\/09\/2011-riots-inglaterra\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":198,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1312,3147],"tags":[76,1322,190,1321],"class_list":["post-14680","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ed384","category-opiniao","tag-crise","tag-inglaterra","tag-politica","tag-riots"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14680","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/198"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14680"}],"version-history":[{"count":25,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14680\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14778,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14680\/revisions\/14778"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}