{"id":30851,"date":"2017-09-13T15:20:20","date_gmt":"2017-09-13T18:20:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/?p=30851"},"modified":"2017-09-14T14:06:02","modified_gmt":"2017-09-14T17:06:02","slug":"eu-nos-e-eles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2017\/09\/eu-nos-e-eles\/","title":{"rendered":"Eu, N\u00f3s e Eles"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #808080;\">Por <strong>Pedro Graminha\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_30886\" aria-describedby=\"caption-attachment-30886\" style=\"width: 828px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/ilustragramareal.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-30886 size-full\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/ilustragramareal.png\" alt=\"\" width=\"828\" height=\"630\" srcset=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/ilustragramareal.png 828w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/ilustragramareal-473x360.png 473w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/ilustragramareal-768x584.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 828px) 100vw, 828px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-30886\" class=\"wp-caption-text\"><em>arte: Fredy Alexandrakis<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Posso te fazer uma pergunta?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por favor, n\u00e3o me leve a mal. Antes de mais nada, quero esclarecer as minhas inten\u00e7\u00f5es: n\u00e3o pretendo ofender ningu\u00e9m, nem nada do tipo. E n\u00e3o pergunto por curiosidade, mas sim porque julgo necess\u00e1rio. Permite? Pois bem, vou tentar ser o mais direto poss\u00edvel. Alguma vez voc\u00ea parou para pensar o quanto suas atitudes s\u00e3o babacas?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o, n\u00e3o estou te xingando. S\u00f3 pe\u00e7o para refletir e ver o quanto seu comportamento recente se encaixa no perfil de uma pessoa babaca \u2013 o conceito \u00e9 relativo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas se a sua resposta for um \u201cn\u00e3o\u201d sonoro, seja o caso de voc\u00ea fazer a pergunta a si mesmo mais uma vez, s\u00f3 por vias das d\u00favidas. Porque, veja bem, \u00e9 fato que muitas coisas no mundo est\u00e3o erradas. N\u00e3o precisa ir procurar muito longe. Basta ligar a televis\u00e3o ou ver o seu <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">feed<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> do Facebook. Est\u00e1 tudo l\u00e1: passeata de neonazistas nos Estados Unidos, floresta Amaz\u00f4nica posta \u00e0 venda, malas e malas repletas de dinheiro no apartamento de um ex-ministro. E esses s\u00e3o os casos mais \u00f3bvios. Nem falei do que acaba n\u00e3o sendo pauta na grande m\u00eddia, como os conflitos que perduram no Oriente M\u00e9dio ou a viol\u00eancia galopante nas periferias do Brasil. Diante disso, \u00e9 muito f\u00e1cil dizer \u201celes est\u00e3o errados\u201d, ou, \u201cas pessoas ficaram loucas\u201d. Ok, concordo, mas quem s\u00e3o \u201celes\u201d? Ser\u00e1 que n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o estamos doidos, n\u00e3o contribu\u00edmos com a nossa cota (por menor que seja) de intoler\u00e2ncia e de culpa? Por isso, julgo v\u00e1lida a reflex\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vejamos o caso brasileiro: nos \u00faltimos anos o cen\u00e1rio pol\u00edtico do pa\u00eds tornou-se um verdadeiro inferno. Nossa democracia mostrou suas fraquezas e certas esp\u00e9cimes que habitam os bastidores do poder revelaram suas verdadeiras faces, deixando claros quais s\u00e3o seus reais interesses. Antes de tudo, antes que as coisas se mostrassem como s\u00e3o \u2013 uma sujeira dif\u00edcil de se dimensionar \u2013 dividiu-se o pa\u00eds. O sujeito \u00e9 oculto. N\u00e3o se trata de uma figura m\u00edstica, onipotente, um diabo amante do caos, mas para \u201calguns algu\u00e9ns\u201d, esse \u00a0pandem\u00f4nio foi sim interessante. A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica era complicada e o caos s\u00f3 deu as bases para que come\u00e7\u00e1ssemos a atacar uns aos outros, procurando culpados confessos entre as massas. Nos dividimos por cores e quitutes: vermelho vs amarelo, coxinha vs mortadela. [SPOILER ALERT]. N\u00e3o importa o lado que voc\u00ea escolheu: n\u00f3s perdemos. N\u00f3s, como pa\u00eds, perdemos; n\u00f3s, como brasileiros. E isso n\u00e3o \u00e9 segredo a ningu\u00e9m. Mas veja s\u00f3, um ano se passou desde que tudo, de fato, come\u00e7ou a piorar (e o impeachment de Dilma Rousseff \u2013 independente de sua opini\u00e3o sobre ela \u2013 \u00a0foi o marco desse processo) e continuamos ressentidos, querendo sangue, expurgar os inimigos da p\u00e1tria para bem longe de nossas fronteiras. Sim, porque n\u00f3s estamos certos, n\u00f3s escolhemos a justi\u00e7a e a verdade. A Hist\u00f3ria nos recompensar\u00e1. Mas n\u00e3o se trata de estar do lado certo ou n\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 bem mais complexa que isso, se trata de estar na merda, juntos. E precisamos sair desse buraco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Talvez, um primeiro passo seja aprender a ouvir. S\u00e3o poucas as pessoas que realmente sabem fazer isso. Ouvir n\u00e3o \u00e9 esperar pacientemente pela sua vez de falar, ou buscar na fala do outro uma deixa perfeita para dar uma resposta adequada. E isso vai um pouco al\u00e9m. N\u00e3o saber ouvir implica em n\u00e3o saber dialogar, e n\u00e3o saber dialogar transforma as pessoas em coisas, r\u00f3tulos pr\u00e9-determinados. Deixamos de ver um \u201cser\u201d, com seus direitos e deveres, para ver comunistas, rea\u00e7as, negros, gays, bem e mal. A fal\u00eancia de uma na\u00e7\u00e3o come\u00e7a assim: nada \u00e9 mais idiota do que simplificar algu\u00e9m, ignorar as complexidades inerentes em cada um. As pessoas s\u00e3o mais, muito mais do que os tra\u00e7os que se apresentam aos olhos e os decib\u00e9is captados pelo ouvido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos dias de hoje, a ret\u00f3rica de muitos pol\u00edticos, como uns Trumps, Le Pens e Bolsonaros, \u00e9 coisificar as pessoas, separ\u00e1-las em rebanhos distintos, definindo quais ser\u00e3o mandados ao sacrif\u00edcio em benef\u00edcio dos demais. Nenhuma ca\u00e7a \u00e0s bruxas resolve problemas, mas como d\u00e1 votos! Isso \u00e9 uma pol\u00edtica velha, t\u00e3o antiga quantos os aquedutos de Roma. Velha e caduca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o, n\u00f3s como seres humanos ainda n\u00e3o estamos encaminhados para uma \u201cSegunda Era dos Extremos\u201d, mas nossas atitudes s\u00e3o preocupantes e a lucidez tende a cobrar o pre\u00e7o de seu abandono. O mundo est\u00e1 ficando louco porque as pessoas est\u00e3o assim. N\u00e3o pensamos direito sobre aquilo que fazemos e acreditamos. Para recobrar a consci\u00eancia, precisamos ver se nossas atitudes, por mais bem-intencionadas que sejam, n\u00e3o excluem ningu\u00e9m, de alguma maneira. Se nossos discursos e amadas ideologias \u2013 que nos tiram da cama todos os dias \u2013 n\u00e3o fazem, por mais que n\u00e3o chegue ao ponto do \u00f3dio, guardar ressentimentos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se trata em abster-se no combate aos extremismos. O racismo, a homofobia e o machismo \u2013 qualquer tipo de intoler\u00e2ncia \u2013 n\u00e3o podem ser aceitos, mesmo com base nos discursos que defendem a liberdade de express\u00e3o. Ser livre para exprimir opini\u00f5es \u00e9 uma coisa, ferir a dignidade de um ser humano, outra. Mesmo assim, \u00e9 importante n\u00e3o perder de vista a necessidade de examinarmos nossa pr\u00f3pria conduta. Por mais que a maioria das pessoas n\u00e3o saia \u00e0s ruas munidas de tochas e gritando palavras de \u00f3dio contra minorias, precisamos nos submeter ao julgamento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quanto a isso o escritor Albert Camus, em seu livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">A Queda \u2013 <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">onde apresenta um personagem realizando um profundo exame de consci\u00eancia, esmiu\u00e7ando seu ego\u00edsmo e hipocrisia, diz: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cSomos todos casos excepcionais. Todos queremos recorrer a qualquer coisa! Cada qual exige ser considerado inocente, a todo custo, mesmo que para isso seja necess\u00e1rio acusar o g\u00eanero humano e o c\u00e9u (&#8230;) O essencial \u00e9 que sejam inocentes, que suas virtudes, pela gra\u00e7a do nascimento, n\u00e3o possam ser postas em d\u00favida, e que seus erros, nascidos de uma infelicidade passageira, nunca sejam mais que provis\u00f3rios. J\u00e1 lhes disse: trata-se de fugir ao julgamento (&#8230;)\u201d.<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sim, nos consideramos superiores e \u00e9 essa mesma no\u00e7\u00e3o que nos permite ver com tanta clareza a loucura do g\u00eanero humano, e nos torna t\u00e3o cegos quanto aos nossos erros. Admiti-los \u00e9 inconceb\u00edvel, mas \u00e9 preciso come\u00e7ar a ver al\u00e9m de n\u00f3s mesmos e, mais do que nunca, dialogar, saber separar os sons dos ru\u00eddos. N\u00e3o nos poupemos das autocr\u00edticas, da paci\u00eancia, de ouvir e conversar com o outro, saber explicar as coisas. N\u00e3o existe o certo e o errado, assim como n\u00e3o existe apenas uma \u00fanica vers\u00e3o de um fato. Falar \u00e9 f\u00e1cil, bem sei, mas a tarefa \u00e9 nobre e v\u00e1lida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E j\u00e1 est\u00e1 mais do que na hora de deixar o orgulho de lado.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Pedro Graminha\u00a0 Posso te fazer uma pergunta? Por favor, n\u00e3o me leve a mal. 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