{"id":32353,"date":"2018-10-02T22:34:40","date_gmt":"2018-10-03T01:34:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/?p=32353"},"modified":"2018-10-06T19:19:36","modified_gmt":"2018-10-06T22:19:36","slug":"o-canto-do-passarinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2018\/10\/o-canto-do-passarinho\/","title":{"rendered":"O canto do passarinho"},"content":{"rendered":"<p><strong><a href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Imagem-Cr\u00f4nica.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-32356\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Imagem-Cr\u00f4nica.png\" alt=\"\" width=\"2472\" height=\"1501\" srcset=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Imagem-Cr\u00f4nica.png 2472w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Imagem-Cr\u00f4nica-480x291.png 480w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Imagem-Cr\u00f4nica-768x466.png 768w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Imagem-Cr\u00f4nica-1024x622.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 2472px) 100vw, 2472px\" \/><\/a>Por Sabrina Brito<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O ritmo repetitivo do alarme do meu celular serve de metr\u00f4nomo, e logo a t\u00e3o familiar orquestra matinal come\u00e7a a tocar. O ressoar de portas batendo, o som da \u00e1gua que me escorre pelos dedos enquanto lavo o rosto, as nada harmoniosas buzinas de carros e motocicletas vindas do lado de fora, a rude \u00f3pera de xingamentos de motoristas ranzinzas e apressados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 ao som dessa sinfonia que eu acordo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ou\u00e7o o port\u00e3o ranger assim que ligo o motor do meu carro, que, j\u00e1 velho, n\u00e3o funciona sem adicionar ao ca\u00f3tico concerto da cidade mais um som estridente. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Solto um suspiro e me junto \u00e0 infinidade de paulistanos tentando chegar a algum lugar dentro das pr\u00f3ximas horas (se tivermos sorte).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi ent\u00e3o que eu ouvi.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Era um canto baixo, mel\u00f3dico. Um canto de p\u00e1ssaros, sem d\u00favida alguma. N\u00e3o precisei pensar para chegar \u00e0 conclus\u00e3o &#8211; autom\u00e1tica, quase natural &#8211; de que devia ser o toque do meu celular ou que a r\u00e1dio devia estar emitindo esse som para anunciar algum quadro novo de um programa qualquer. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas o meu celular estava no modo avi\u00e3o e o r\u00e1dio, desligado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Demorei alguns segundos para entender a verdade: eram p\u00e1ssaros. P\u00e1ssaros. De carne, osso e penas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi rir. Que besteira! Onde j\u00e1 se viu pensar antes no som artificial do que no natural?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Onde j\u00e1 se viu? <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bom, no mundo todo. O tempo todo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nosso dia a dia \u00e9 composto disso: de barulhos maquinais, imagens artificiais, coment\u00e1rios \u00e0 dist\u00e2ncia. N\u00f3s nos acostumamos a delegar a rob\u00f4s tarefas que um dia foram exclusivamente nossas, nos submetemos \u00e0 estagnada confus\u00e3o do tr\u00e2nsito, passamos momentos de afli\u00e7\u00e3o esperando pelas respostas de mensagens de texto nada urgentes. Essa \u00e9 a nossa vida, nosso cotidiano, ao longo do qual simplesmente desaprendemos a ouvir sons naturais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essas palavras ressoam na minha cabe\u00e7a e abafam todo o resto. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c0 medida que o passarinho se aproxima do meu carro, abaixo a janela, como que para ouvir o que ele tem a me dizer. O sil\u00eancio que preenche o espa\u00e7o entre n\u00f3s \u00e9 muito mais alto do que qualquer barulho. Com o animal empoleirado no meu retrovisor, reflito sobre o porqu\u00ea de me sentir incomodada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Talvez esses pensamentos s\u00f3 me rondem a cabe\u00e7a pelo fato de eu trabalhar com tecnologia em uma revista. Dia ap\u00f3s dia \u00e9 minha fun\u00e7\u00e3o ler sobre como as redes sociais nos isolam, sobre como os rob\u00f4s est\u00e3o fazendo de tudo (e fazendo tudo melhor que n\u00f3s), sobre como ningu\u00e9m sabe mais o que \u00e9 ser humano, sobre como os fios e telas se sobrepuseram \u00e0 humanidade. Mas eu, fruto da virada de um s\u00e9culo recheado de novidades, n\u00e3o acredito nisso (apesar de ainda gostar de ouvir o canto dos p\u00e1ssaros).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pouco far\u00e1 diferen\u00e7a se consideramos normal ou errado uma crian\u00e7a ganhar um smartphone antes de aprender a falar. Precisamos aceitar que o mundo est\u00e1 mudando e que n\u00f3s devemos mudar com ele. Nos adaptar aos novos gadgets e nos sobrepor a eles &#8211; antes que eles se sobreponham a n\u00f3s. Afinal, at\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s, os passarinhos apenas nos sobrevoavam, enquanto hoje representam esses conjuntos de fibra \u00f3ptica que podem se sobrepor \u00e0 humanidade. \u00c9, as coisas de fato mudaram.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o acho que seja conden\u00e1vel que algum jovem por a\u00ed passe muito tempo em seu celular e prefira conversar pelo WhatsApp do que pessoalmente. \u00c9 um comportamento ao qual n\u00e3o estamos acostumados, \u00e9 novo, nos impacta. Mas n\u00e3o \u00e9 um comportamento errado, apenas diferente. Qui\u00e7\u00e1 ele sirva at\u00e9 mesmo como pr\u00e9via do futuro que est\u00e1 por vir. E pode ser que ele n\u00e3o seja t\u00e3o assustador assim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A quest\u00e3o \u00e9: ningu\u00e9m \u00e9 capaz de desacelerar essa enorme roda chamada \u201cavan\u00e7os tecnol\u00f3gicos\u201d. Dado isso, de que serve criticar os jovens em vez de tentar entend\u00ea-los?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Talvez compreendamos o contato humano como prefer\u00edvel ao virtual, mas isso \u00e9 o que pensamos hoje. E se, no futuro, anormal for conversar com algu\u00e9m cara a cara? Se for esse o caso, por que somos t\u00e3o r\u00e1pidos em julgar esse fato como negativo? Se n\u00f3s nunca tivemos um mundo como o atual, por que somos prepotentes a ponto de rotular esses novos costumes como absurdos? E se as aves, em vez de deixarem de existir, simplesmente se tornem virtuais? Seria isso t\u00e3o ruim assim?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Existem, claro, aqueles que advogam contra as redes sociais e o uso exagerado de aparelhos eletr\u00f4nicos, sobretudo por causa de seus poss\u00edveis efeitos danosos na mente do usu\u00e1rio. Mas esse universo \u00e9 demasiado novo para que o denominemos \u201cnegativo\u201d. Agindo dessa forma, enfrentamos com um olhar desanimado uma perspectiva que ainda n\u00e3o conhecemos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Temos que dar uma chance a essas tecnologias. Temos que dar uma chance a esses jovens que vivem com os rostos fixados na tela e os dedos \u00e1geis passeando pelo teclado. Eles representam o futuro, gostemos ou n\u00e3o. Mais nos valer\u00e1 entender e apoi\u00e1-los do que critic\u00e1-los a ponto de se tornarem, com o tempo, adultos inseguros e amargos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aceitemos os poss\u00edveis p\u00e1ssaros compostos de fios e movidos a eletricidade e formemos um coral harmonioso ao seu lado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De volta \u00e0 minha casa, coloco o meu novo animal de estima\u00e7\u00e3o dentro da gaiola rec\u00e9m-comprada e fecho a portinhola.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Sabrina Brito O ritmo repetitivo do alarme do meu celular serve de metr\u00f4nomo, e logo a t\u00e3o familiar orquestra matinal come\u00e7a a \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2018\/10\/o-canto-do-passarinho\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":104,"featured_media":32356,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4336],"tags":[3460,4348,4349,249],"class_list":["post-32353","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ed-491","tag-cronica","tag-passarinho","tag-rotina","tag-tecnologia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32353","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/104"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32353"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32353\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":32357,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32353\/revisions\/32357"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32356"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32353"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32353"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32353"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}