{"id":34160,"date":"2019-10-21T15:04:49","date_gmt":"2019-10-21T18:04:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/?p=34160"},"modified":"2019-10-21T15:04:49","modified_gmt":"2019-10-21T18:04:49","slug":"sob-o-sol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2019\/10\/sob-o-sol\/","title":{"rendered":"Sob o sol"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Marcus De Rosa<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_34161\" aria-describedby=\"caption-attachment-34161\" style=\"width: 785px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/para-cronica-2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-34161\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/para-cronica-2.png\" alt=\"\" width=\"785\" height=\"644\" srcset=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/para-cronica-2.png 785w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/para-cronica-2-439x360.png 439w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/para-cronica-2-768x630.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 785px) 100vw, 785px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-34161\" class=\"wp-caption-text\">Arte: @VELARDE_CAPSLOCK<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu venho de uma tribo de n\u00f4mades que n\u00e3o busca nada al\u00e9m do que pode alcan\u00e7ar, e n\u00f3s sabemos que o deserto \u00e9 para sempre. Em nossa cultura s\u00f3 existem duas lendas: o come\u00e7o e o fim do mundo. O mundo nasceu do Sol, de onde veio a areia do deserto, e dele veio todo o resto. E sabemos como esse mundo vai acabar, e onde estaremos quando isso acontecer.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00f3s buscamos o pr\u00f3ximo mundo, que vem depois do deserto. Os anci\u00f5es nos contam que h\u00e1 mil\u00eanios atr\u00e1s esse mundo era toda a terra que vagamos. Por isso andamos, em busca desta lenda. Os antigos dizem que, se olharmos com aten\u00e7\u00e3o, podemos ver no c\u00e9u amarelo, ao anoitecer, uma cor esquecida, que chamam de verde, e que a ver\u00edamos de novo no pr\u00f3ximo mundo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu e meu bando chegamos a uma ru\u00edna no deserto. Uma antiga grande capital. Viemos buscar aqui um or\u00e1culo, que dizem conter as respostas para tudo. Uma pequena constru\u00e7\u00e3o era a \u00fanica habitada. Em frente havia restos de animais do deserto, deixados l\u00e1 para amedrontar forasteiros. Amarramos os camelos e entramos. Morava dentro uma mulher que, ao ver nossos trajes t\u00edpicos, nos recebeu amigavelmente. \u201cQueremos a resposta dos mil\u00eanios, a resposta que trar\u00e1 o fim do mundo, o fim do deserto.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De um dos vasos pendurados, ela arrancou um ramo de erva seca e mascou; pausou, e retrucou: \u201cO mundo deve recome\u00e7ar. Povos antes de voc\u00eas procuraram o ouro no barro. Voc\u00eas procuram o barro no ouro. Suas vidas s\u00e3o apenas o dourado da areia e do Sol. E \u00e9 fugindo do Sol que voc\u00eas chegar\u00e3o ao que buscam. O dourado manchou a terra e toda cor que existe nela.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00f3 havia um lugar onde o homem conseguiu fugir do Sol. Uma caverna lend\u00e1ria, na qual uma tribo mergulhou e desapareceu, antes de meu povo sequer existir. Ent\u00e3o partimos para encontr\u00e1-la, afinal.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ela ficava a oeste do deserto e, quando a encontramos, entramos sem saber se sair\u00edamos. A luz do dia se perdeu l\u00e1 dentro. Brilhou ent\u00e3o uma luz azul no escuro, como nunca t\u00ednhamos visto. Ent\u00e3o eles chegaram at\u00e9 n\u00f3s, os portadores do fim do mundo. Uma mulher e varios homens sa\u00edram do clar\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cBem vindos\u201d, iniciou a mulher. Como sabia minha l\u00edngua? \u201cEsta \u00e9 nossa casa\u201d, continuou. Perguntei quem eram. \u201cSomos como voc\u00ea. N\u00f3s vivemos aqui por gera\u00e7\u00f5es.\u201d\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eles nos levaram por uma ponte subterr\u00e2nea, que desembocava em uma constru\u00e7\u00e3o gigante, dentro de uma colossal cidade intraterrestre. Como chegaram ali? \u201cDestru\u00edmos o mundo de cima. As florestas deram lugar ao deserto, e o c\u00e9u azul foi tomado pelo amarelo polu\u00eddo. Quando a vida foi varrida da superf\u00edcie, constru\u00edmos essa cidade dentro da terra.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quem fez isso? \u201cN\u00f3s. Era como viv\u00edamos. Usamos o mundo de cima at\u00e9 o esgotarmos. E para c\u00e1 vieram s\u00f3 os que tinham dinheiro o suficiente.\u201d N\u00e3o sabia do que ela falava.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Maravilhados com a cidade dos deuses, contei a eles que voltar\u00edamos com toda a tribo, para que pud\u00e9ssemos finalmente viver no mundo al\u00e9m do deserto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ela riu. \u201cSua busca acaba aqui. S\u00e3o nossas regras. Manter total sigilo e n\u00e3o se misturar com as ra\u00e7as da superf\u00edcie.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu nem cheguei a ver o verde.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Marcus De Rosa Eu venho de uma tribo de n\u00f4mades que n\u00e3o busca nada al\u00e9m do que pode alcan\u00e7ar, e n\u00f3s sabemos \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2019\/10\/sob-o-sol\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":104,"featured_media":34161,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4147,3149,4671],"tags":[3460,4672],"class_list":["post-34160","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica","category-cultura","category-ed-504","tag-cronica","tag-edicao-504"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/104"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34160"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34160\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":34162,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34160\/revisions\/34162"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/34161"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}