{"id":37060,"date":"2021-01-07T10:00:30","date_gmt":"2021-01-07T13:00:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/?p=37060"},"modified":"2021-01-08T15:04:51","modified_gmt":"2021-01-08T18:04:51","slug":"37060","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2021\/01\/37060\/","title":{"rendered":"A b\u00ean\u00e7\u00e3o m\u00e3e?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/cronica.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-36781\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/cronica.png\" alt=\"\" width=\"193\" height=\"24\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>por <em>Rafael Sampaio<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/capa-2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-37065\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/capa-2.png\" alt=\"\" width=\"1980\" height=\"1320\" srcset=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/capa-2.png 1980w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/capa-2-480x320.png 480w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/capa-2-768x512.png 768w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/capa-2-1024x683.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1980px) 100vw, 1980px\" \/><\/a><\/p>\n<h6>Arte: <em>Rafael Sampaio<\/em>\/Fotomontagem com imagens de <em>Rafael Sampaio<\/em> e <em>Jahan Ger\/Unsplash<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; A b\u00ean\u00e7\u00e3o m\u00e3e!<br \/>\n&#8211; Deus te aben\u00e7\u00f5e, minha filha.<\/p>\n<p>Beijava a m\u00e3e ainda dormindo; sa\u00eda para o trabalho.<\/p>\n<p>Todos dormiam no mesmo quarto. Duas Marias. Filha e m\u00e3e. Casa pequena; por terminar. Laje pronta h\u00e1 pouco. A m\u00e3e juntava parte da aposentadoria para erguer o quarto dos netos. Tr\u00eas meninos, filhos de Maria. Trabalho longe.<\/p>\n<p>De tarde, passava no mercadinho. &#8220;Dez p\u00e3ezinhos, por favor.&#8221; Dois pra cada um. Todo dia, a mesa pronta. Caf\u00e9 fresquinho.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0Beijava a m\u00e3e sentada no quintal.<\/span><\/p>\n<p>&#8211; A b\u00ean\u00e7\u00e3o m\u00e3e!<br \/>\n&#8211; Deus te aben\u00e7\u00f5e, minha filha.<\/p>\n<p>Entravam, as duas Marias. Os meninos comiam no sof\u00e1, vendo televis\u00e3o. M\u00e3e e filha, na mesa. Por vezes, n\u00e3o falavam. Maria pegava na m\u00e3o de Maria. Acariciava com os dedos as manchas rochas da pele fr\u00e1gil porque velha da m\u00e3e. Deveria ir ao m\u00e9dico ver isso, s\u00f3 bater fica roxo. \u201cCoisa de velho\u201d, retrucava a velha.<\/p>\n<p>Chegando em casa, um dia, sentiu falta do caf\u00e9. A m\u00e3e deitadinha na cama. Dor de cabe\u00e7a, minha filha. Gripe. Esqueceu de tomar a vacina; bem feito pra ela. Sopa de mandioquinha. Comeu bem pouco. N\u00e3o sentia o gosto. N\u00e1useas. A filha dormiu mal, levantava toda hora. Punha o rosto no rosto da m\u00e3e. Maria tinha febre.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&#8211; A b\u00ean\u00e7\u00e3o m\u00e3e!<br \/>\n&#8211; Deus te aben\u00e7\u00f5e, minha filha.<\/p>\n<p>Voz fraquinha. Antes de sair, foi at\u00e9 a cama do primog\u00eanito. Levar a v\u00f3 ao postinho. \u201cGripe forte\u201d, disseram. Tivesse tomado a vacina. Deram um rem\u00e9dio pra febre. Estava um pouco melhor. Fez o caf\u00e9 fraquinho. Do jeito que a filha gosta. Maria abriu o port\u00e3o, o cheiro a deixou\u00a0feliz.<\/p>\n<p>A noite, tudo piorou. Maria fervia, suando. Hospital, n\u00e3o precisava. \u201cPor uma gripe?\u201d A filha insistiu. Maria tremendo esbravejava. \u201cPerda de tempo!\u201d Melhor tivesse ficado em casa. A filha iria trabalhar com sono, no dia seguinte. Muita gente no hospital. &#8220;Gripe forte&#8221;, disseram. Princ\u00edpio de pneumonia. Tivesse tomado a vacina. Outro rem\u00e9dio para febre. \u201cTe falei, minha filha. Se me ouvisse.\u201d<\/p>\n<p>&#8211; A b\u00ean\u00e7\u00e3o m\u00e3e!<br \/>\n&#8211; Deus te aben\u00e7\u00f5e, minha filha.<\/p>\n<p>A voz da m\u00e3e pela \u00faltima vez.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Parecia\u00a0melhor. Maria quiz acreditar. Tanto sono. Perto do meio-dia, o mais novo ligou. A v\u00f3 fazia um barulho estranho. Deixasse falar com ela. Maria n\u00e3o podia. Puxava o ar; n\u00e3o vinha. O peito subindo e descendo. Toda for\u00e7a de Maria no t\u00f3rax. As duas m\u00e3ozinhas enrugadas, uma sobre a outra, no peito. Maria sem ar. Hospital. O vizinho tem carro. Corre!<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Carro, cadeira de rodas, maca e UTI. Satura\u00e7\u00e3o baixa. Precisa entubar. Seda\u00e7\u00e3o. Tira um raio-x. Quase 80% dos pulm\u00f5es comprometidos. P\u00f5e no respirador. Quarenta dias.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Morreu.<\/p>\n<p>Maria trabalhava. Ligaram do hospital. Disseram ser urgente a presen\u00e7a de um respons\u00e1vel para liberar o corpo. Maria avisou o irm\u00e3o. Guardou o celular no avental. Lavou as m\u00e3os. Faltava pouco para o almo\u00e7o, logo o restaurante estaria cheio. Terminou de encher as cubas do buffet. Quarta-feira. Feijoada, arroz, banana frita. &#8220;Faz mais arroz, Maria&#8221;. Restaurante vazio. O patr\u00e3o passou do lado. \u201cPreciso sair mais cedo, minha m\u00e3e morreu.\u201d<\/p>\n<p>Da cama para os sacos. Imperme\u00e1veis, a prova de vazamentos. Etiqueta colada no frio peito nu. Enfia\u00a0o corpo no saco. Etiqueta colada no saco. Enfia\u00a0no outro saco. Colada a terceira etiqueta: Maria do Ros\u00e1rio Silva &#8211; Risco biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Do saco para o caix\u00e3o. Embrulha o corpo ensacado em papel\u00e3o. O pacote dentro do\u00a0caix\u00e3o.\u00a0Caix\u00e3o lacrado.<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Disseram, s\u00f3 dez pessoas no cemit\u00e9rio. Regras. Aguardavam. Era de tarde. Maria lembrou do caf\u00e9. Nunca mais o caf\u00e9 da m\u00e3e. Maria chorou, pela primeira vez. O carro f\u00fanebre trouxe o corpo. Disseram, n\u00e3o pode vel\u00f3rio. Mostraram a certid\u00e3o de \u00f3bito: suspeita de covid-19.<\/p>\n<p>Do carro para a cova. Tantas covas abertas. O carro parou em uma. Uma qualquer. O caix\u00e3o fora do carro. Tentava, Maria, ver atrav\u00e9s das t\u00e1buas. Tocou a madeira querendo tocar a m\u00e3e. Quarenta dias. A m\u00e3e sozinha no hospital. Tinha frio, quem cobria? Tivesse fome, quem faria seu mingau de fub\u00e1?<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>O caix\u00e3o descia. No fundo, as p\u00e1s jogando terra. Maria olhava sem ver. Lembrou da \u00faltima vez, o beijo na m\u00e3e antes de sair para o trabalho. As \u00faltimas palavras ditas\u2026<span class=\"Apple-converted-space\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Quais palavras?<\/p>\n<p>Na bolsa pegou um papel e uma caneta. Escreveu de qualquer jeito. A terra chovendo no caix\u00e3o. Buscou uma pedra. Embrulhou-a no papel. A cova quase cheia. A pedra lan\u00e7ada. Caix\u00e3o e bilhete\u00a0escondidos pela terra.<\/p>\n<p>Maria lembrou das palavras. As primeiras, ditas ao chegar\u00a0em casa. As \u00faltimas, faladas quando se despedia da m\u00e3e. A despedida derradeira escrita\u00a0no papel. O bilhete de despedida errante.<\/p>\n<p>&#8211; A b\u00ean\u00e7\u00e3o m\u00e3e?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&nbsp; por Rafael Sampaio Arte: Rafael Sampaio\/Fotomontagem com imagens de Rafael Sampaio e Jahan Ger\/Unsplash &nbsp; &#8211; A b\u00ean\u00e7\u00e3o m\u00e3e! &#8211; Deus te \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2021\/01\/37060\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":104,"featured_media":37065,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4995,4147,3151,3147],"tags":[],"class_list":["post-37060","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-4995","category-cronica","category-editorias","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37060","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/104"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37060"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37060\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":37193,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37060\/revisions\/37193"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37065"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37060"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37060"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37060"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}