{"id":37238,"date":"2021-05-27T14:00:40","date_gmt":"2021-05-27T17:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/?p=37238"},"modified":"2021-05-26T21:49:39","modified_gmt":"2021-05-27T00:49:39","slug":"livre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2021\/05\/livre\/","title":{"rendered":"Livre"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/cronica.png\" alt=\"\" width=\"196\" height=\"24\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>por <em>Suzana Correa-Petropouleas<\/em><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"attachment-266x266 alignleft\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/statue-185435_1280.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 266px) 100vw, 266px\" srcset=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/statue-185435_1280.jpg 1280w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/statue-185435_1280-480x320.jpg 480w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/statue-185435_1280-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/statue-185435_1280-1024x682.jpg 1024w\" alt=\"\" width=\"547\" height=\"365\" \/><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: left;\"><em>Foto: \u00c9va Zara\/Canva CC<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O bicho-pombo abre os olhinhos negros. Adormecera acomodado sob o mesmo fio de sempre, entre os dois postes de sempre, olhando as ruas sujas do centro paulistano que eram sua casa e agora amanheciam claras e vazias. Vazias demais. Olha para a direita. Para a esquerda. Ningu\u00e9m. Irm\u00e3o-pombo se aproxima. Ele tamb\u00e9m notou. Observam.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 \u00e9 final da manh\u00e3 quando todos irm\u00e3os pombos re\u00fanem-se sob o ch\u00e3o da Pra\u00e7a. Dezenas. Talvez uma centena. Reuni\u00e3o assim s\u00f3 se vira na Grande Chuva de Migalhas, quando um carreto de p\u00e3es pilotado por um menino-homem magricela tombara na esquina da Quintino Bocai\u00fava com a Rua Direita. Faziam quase cem invernos em anos-de-homem e bicho-pombo n\u00e3o estava l\u00e1 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> mas \u00e9 uma daquelas hist\u00f3rias que se ouve no ninho e jamais se esquece. Dessa vez, no entanto, nenhuma migalha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Morreram, morreram aos montes. Extintos <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> declara aos pios irm\u00e3-pomba mais viajada e metida a sabida. Vinha de longe, do leste, e l\u00e1 tamb\u00e9m as ruas estavam vazias e nem sinal dos bichos-homem que lotavam a S\u00e9 \u00e0quela altura da manh\u00e3, todas manh\u00e3s.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Exagera, a companheira. Veja ali um deles. E outro ali, caminhando com seu ninho-papel\u00e3o e seu bicho-c\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Mas sozinhos. Parecem abandonados. Como se tivessem ficado para tr\u00e1s, esquecidos pelos seus.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Esquecidos pelos seus, sim. Mas h\u00e1 muito tempo. Desde que a pra\u00e7a \u00e9 pra\u00e7a e o bicho-homem, homem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O bicho-pombo ouvia em sil\u00eancio as opini\u00f5es da fam\u00edlia-pombo. Sabia que os bichos-homem matavam de fome seus iguais, mesmo sabendo produzir migalhas de p\u00e3o suficientes para dar de comer a todos eles. Se ele soubesse fazer migalhas, nunca mais os bichos-pombo disputariam os pequenos e crocantes peda\u00e7os de p\u00e3o. Nunca mais. Ele podia jurar.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sol nasce, sol se p\u00f5e. Ruas esvaziadas. Todos os dias chegam na pra\u00e7a not\u00edcias novas de bichos-irm\u00e3os sobre o desaparecimento dos bichos humanos. Est\u00e3o escondidos, ouviu dizer um bicho-grilo que soube da informa\u00e7\u00e3o em primeira m\u00e3o de bichos-tartaruga no litoral, longe dali.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O mar estava em festa, ele dizia. Bichos-tartaruga aproximavam-se de ba\u00edas e portos antes sujos e revoltos. Boiavam sob o sil\u00eancio. Em Marselha, muito longe dali, bichos-baleia que antes se escondiam nas profundezas agora apresentavam\u00a0<\/span><span style=\"color: #cccccc;\"><strong><a style=\"color: #cccccc;\" href=\"https:\/\/cultura.estadao.com.br\/noticias\/geral,bale-das-baleias,70003272281\">o mais bonito dos bal\u00e9s sob as \u00e1guas.<\/a><\/strong><\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Toda sorte de bichos d&#8217;\u00e1gua subia \u00e0 superf\u00edcie para espiar o que fizera as \u00e1guas clarearem e o barulho cessar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aos poucos, era dif\u00edcil dizer o que era fantasia ou uma realidade que o bicho-pombo, ali, s\u00f3 podia imaginar. Um bicho-c\u00e3o percorrera pela terceira vez o trajeto entre a Pra\u00e7a do Rel\u00f3gio e o Largo S\u00e3o Francisco, em busca de not\u00edcias sobre os bichos-homem filhotes que antes circulavam alegres por ambos, fazendo-lhe companhia. Voltara com hist\u00f3rias sobre bichos-macaco que agora\u00a0<\/span><strong><span style=\"color: #cccccc;\"><a style=\"color: #cccccc;\" href=\"https:\/\/f5.folha.uol.com.br\/voceviu\/2020\/04\/macacos-empinam-pipa-e-nadam-em-piscina-durante-a-quarentena-na-india.shtml\">nadavam em piscinas vazias de pr\u00e9dios na \u00cdndia<\/a><\/span><\/strong><span style=\"font-weight: 400;\">, como sonhavam fazer h\u00e1 anos.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Seus irm\u00e3os domesticados n\u00e3o tiveram tanta sorte, dizia o bicho-c\u00e3o. Enclausurados com os bichos-homem, n\u00e3o podiam andar sob o sol ou pisar na grama. Bicho-homem teme bicho-v\u00edrus, contavam sob latidos e miados emitidos atrav\u00e9s de janelas gradeadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sem bicho-homem, sem migalhas. Bicho-pombo gostava de migalhas. E aprendera a gostar, \u00e0 sua maneira, dos bichos humanos \u2014 embora suspeitasse que o\u00a0afeto nunca fora rec\u00edproco. Mas tamb\u00e9m gostava das hist\u00f3rias no ninho sobre um tempo em que a cidade era como um mar azul infinito sem sinal de \u00f3leo ou motores. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bicho-pombo estica as asinhas cinzas. A cidade finalmente seria, como sempre fora de direito, dos seus. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&nbsp; por Suzana Correa-Petropouleas Foto: \u00c9va Zara\/Canva CC &nbsp; O bicho-pombo abre os olhinhos negros. 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