{"id":37332,"date":"2021-05-25T20:00:34","date_gmt":"2021-05-25T23:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/?p=37332"},"modified":"2025-05-26T22:16:11","modified_gmt":"2025-05-27T01:16:11","slug":"freud-e-lacan-explicam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2021\/05\/freud-e-lacan-explicam\/","title":{"rendered":"Psican\u00e1lise explicada: Freud e Lacan viram tema de an\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Mais de um s\u00e9culo depois do surgimento da psican\u00e1lise, comemoramos n\u00e3o s\u00f3 seu fundador como tamb\u00e9m um de seus grandes int\u00e9rpretes. Mas por qu\u00ea?<\/strong><\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-36940\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/cultura.png\" alt=\"\" width=\"193\" height=\"24\" \/><\/p>\n<p>por <em>Bruno Milit\u00e3o<\/em>, <em>Luana Franz\u00e3o<\/em> e <em>Maria Lu\u00edsa Bassan<\/em><\/p>\n<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-37413\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pauta-JC-Freud-e-Lacan.png\" alt=\"\" width=\"1366\" height=\"768\" srcset=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pauta-JC-Freud-e-Lacan.png 1366w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pauta-JC-Freud-e-Lacan-480x270.png 480w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pauta-JC-Freud-e-Lacan-768x432.png 768w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Pauta-JC-Freud-e-Lacan-1024x576.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 1366px) 100vw, 1366px\" \/><strong><em>Arte: Luana Franz\u00e3o\/Fotos:\u00a0Giancarlo Botti,\u00a0Max Halberstadt, ECA USP, Casa do Saber e Arquivo pessoal<\/em><\/strong><\/h6>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O ano de 2021 re\u00fane datas importantes para os principais nomes da psican\u00e1lise. Neste ano, o pai da ci\u00eancia psicanal\u00edtica, Sigmund Freud, completaria 165 anos, e seu herdeiro intelectual, que promove um retorno \u00e0s suas ideias \u2013 afastando-se de algumas teorias p\u00f3s-freudianas \u2013, o franc\u00eas Jacques Lacan completaria 120 anos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o apenas uma ci\u00eancia, como pretendia seu criador, mas tamb\u00e9m um m\u00e9todo cl\u00ednico, uma escola de pensamento e, hoje, uma forma de pensar, ler e ver cultura e sociedade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O <strong>JC <\/strong>aproveitou essa efem\u00e9ride para conversar com alguns especialistas e estudiosos de psican\u00e1lise, pertencentes a \u00e1reas diversas do conhecimento, a fim de mostrar o alcance desse pensamento, como chegou \u00e0 nossa Universidade e como se faz presente n\u00e3o s\u00f3 nas formas de interpreta\u00e7\u00e3o e cr\u00edtica da cultura, mas nas pr\u00f3prias produ\u00e7\u00f5es culturais.<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"color: #990099;\"><b>Por que a psican\u00e1lise?<\/b><\/span><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Criada pelo austr\u00edaco Sigmund Freud como um m\u00e9todo de psicoterapia \u2013 ou tratamento pela fala \u201cpautado na explora\u00e7\u00e3o do inconsciente, com ajuda da associa\u00e7\u00e3o livre por parte do paciente, e da interpreta\u00e7\u00e3o, por parte do psicanalista\u201d (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Dicion\u00e1rio de Psican\u00e1lise, organizado por Elisabeth Roudinesco e Michel Plon<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">), a psican\u00e1lise constitui tamb\u00e9m uma escola de pensamento.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia (IP) da USP, Freud pretendia que a psican\u00e1lise fosse uma ci\u00eancia laica, universalista, de aspira\u00e7\u00e3o demonstrativa e com grande confian\u00e7a no m\u00e9todo. Apesar disso, o m\u00e9todo sofreu diversas cr\u00edticas ao longo de seus mais de cem anos de exist\u00eancia, justamente por conta de seu estatuto de cientificidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cGrandes pensadores, como o fil\u00f3sofo Ludwig Wittgeinstein, criticaram a psican\u00e1lise, por\u00e9m isso coloca uma quest\u00e3o: como uma teoria tantas vezes chacinada, expulsa da ci\u00eancia, volta, resiste, reapresenta-se e se transforma nesse processo?\u201d, aponta Dunker.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um dos motivos para explicar essa resist\u00eancia diz respeito \u00e0 pr\u00f3pria particularidade desse m\u00e9todo de terapia. \u201cCom a crise global na sa\u00fade mental e do seu modelo, baseado na hip\u00f3tese de que \u2018tudo s\u00e3o problemas cerebrais\u2019, n\u00e3o h\u00e1 muito o que dizer, porque dentro desse modelo o que se faz \u00e9 atacar o sintoma e destru\u00ed-lo\u201d, explica o professor. A psican\u00e1lise, ao contr\u00e1rio desse modelo, d\u00e1 um passo para tr\u00e1s e pensa no estado anterior ao do sintoma.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m do pr\u00f3prio m\u00e9todo terap\u00eautico, o alcance desse pensamento deve-se tamb\u00e9m \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o, desde Freud e os primeiros psicanalistas, em ler, interpretar e intervir em debates sobre sociedade e cultura.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Christian Dunker apresenta uma tr\u00edade de textos de Freud que se encaixam nesse aspecto. S\u00e3o eles <em>Futuro de uma ilus\u00e3o<\/em>, sobre religi\u00e3o; <em>Psicologia das massas e an\u00e1lise do Eu<\/em>, no qual Freud trata de grupos e institui\u00e7\u00f5es; e <em>Mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, no qual ele fala sobre o desconforto causado pelos processos civilizacional e cultural enquanto processos repressivos.\u00a0<\/span><\/p>\n<h5><span style=\"color: #990099;\">Confira o depoimento, em \u00e1udio, do prof. Christian Dunker sobre sua aproxima\u00e7\u00e3o com a psican\u00e1lise e os estudos no IPUSP<\/span><\/h5>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-37332-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/christian-dunker-wordpress.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/christian-dunker-wordpress.mp3\">https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/christian-dunker-wordpress.mp3<\/a><\/audio>\n<h2><\/h2>\n<h2><span style=\"color: #990099;\"><b>Chegada a outros campos<\/b><\/span><\/h2>\n<h3><span style=\"color: #990099;\">Comunica\u00e7\u00e3o e psican\u00e1lise<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os estudos de psican\u00e1lise e de conceitos psicanal\u00edticos, embarcando na preocupa\u00e7\u00e3o em participar de debates sociais, se estendem tamb\u00e9m para al\u00e9m da pr\u00f3pria psicologia, chegando \u00e0s ci\u00eancias humanas, \u00e0s ci\u00eancias sociais aplicadas e at\u00e9 \u00e0s artes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No que diz respeito aos estudos de psican\u00e1lise dentro da \u00e1rea da Comunica\u00e7\u00e3o, Mayra Rodrigues Gomes, professora titular aposentada da ECA, esclarece que a pr\u00f3pria psican\u00e1lise, desde seu come\u00e7o, em uma vertente com base no pensamento freudiano, se instala no universo da Comunica\u00e7\u00e3o, na medida em que faz dela e das linguagens o seu objeto central de observa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cA psican\u00e1lise n\u00e3o existe sem linguagem. \u00c9 um tipo de pensamento que se baseia n\u00e3o s\u00f3 em considera\u00e7\u00f5es sobre o papel da linguagem na constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, como tamb\u00e9m na terapia, a qual \u00e9 baseada na escuta. Ou seja, s\u00e3o teorias que t\u00eam como base uma rela\u00e7\u00e3o com linguagem, e fazem dos modos de comunica\u00e7\u00e3o o objeto de seu estudo\u201d, aponta ela.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um exemplo b\u00e1sico explicitado pela professora \u00e9 a obra<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\"><em>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos<\/em>, de Freud, publicada originalmente em 1899. Segundo ela, trata-se de uma proposta para analisar os relatos do analisando, a narra\u00e7\u00e3o dos fatos acontecidos ou por ele experimentados. \u201cO analista tem de prestar aten\u00e7\u00e3o nesses fatos, e pensar nesses sonhos relatados como s\u00edmbolos de uma determinada situa\u00e7\u00e3o, sempre como signos de um certo ponto de conflito.\u201d<\/span><\/p>\n<h5><span style=\"color: #990099;\">A prof\u00aa Mayra comenta, em \u00e1udio, um pouco sobre o hist\u00f3rico dos estudos de comunica\u00e7\u00e3o e psican\u00e1lise<\/span><\/h5>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-37332-2\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mayra-wordpress.mp3?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mayra-wordpress.mp3\">https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/mayra-wordpress.mp3<\/a><\/audio>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-37412\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Freud.png\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Freud.png 1000w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Freud-360x360.png 360w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Freud-768x768.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/h6>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><em>Arte: Luana Franz\u00e3o\/Foto: Max Halberstadt<\/em><\/h6>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para Rosana de Lima Soares, professora associada do Departamento de Jornalismo e Editora\u00e7\u00e3o da ECA, a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 pensada a partir da psican\u00e1lise como uma forma de problematizar vis\u00f5es mecanicistas ou funcionalistas que se t\u00eam n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o aos processos comunicacionais mas aos pr\u00f3prios meios de comunica\u00e7\u00e3o, especialmente em rela\u00e7\u00e3o aos seus p\u00fablicos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo a docente, o sujeito que fala nos discursos n\u00e3o \u00e9 sempre um sujeito racional, dono de sua vontade, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 sempre dominado ou assujeitado. Esse sujeito \u00e9 interpelado pelo campo do discurso, ao qual ele reage e do qual tamb\u00e9m \u00e9 produtor.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEssa \u00e9 uma quest\u00e3o importante quando a gente coloca o sujeito em rela\u00e7\u00e3o ao conceito de inconsciente que Freud e Lacan desenvolvem; a rela\u00e7\u00e3o do humano com a linguagem se transforma. A linguagem n\u00e3o \u00e9 apenas uma ferramenta que pode produzir conte\u00fados, mas ela \u00e9 o nosso pr\u00f3prio modo de ser e de estar no mundo\u201d, explica.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em vez de se voltar para buscas de respostas, a psican\u00e1lise seria uma teoria de indaga\u00e7\u00f5es. \u201c\u00c9 claro que ela \u00e9 mais voltada para a cl\u00ednica do sujeito, mas quando pensamos na psican\u00e1lise em perspectiva social, \u00e9 ela quem interpela o campo mais amplo da cultura e das produ\u00e7\u00f5es culturais.\u201d Nesse vi\u00e9s, \u00e9 uma teoria que lan\u00e7a um olhar cr\u00edtico sobre a sociedade, ao problematizar rela\u00e7\u00f5es que s\u00e3o consideradas naturalizadas ou estabilizadas.<\/span><\/p>\n<h5><span style=\"color: #990099;\">A prof\u00aa Rosana tamb\u00e9m conta sua aproxima\u00e7\u00e3o com os estudos psicanal\u00edticos, quando da sua chegada \u00e0 ECA-USP<\/span><\/h5>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-37332-3\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/rosana-wordpress.mp3?_=3\" \/><a href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/rosana-wordpress.mp3\">https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/rosana-wordpress.mp3<\/a><\/audio>\n<h3><\/h3>\n<h3><span style=\"color: #990099;\">Literatura e psican\u00e1lise<\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No campo das artes, a rela\u00e7\u00e3o com psican\u00e1lise \u00e9 intr\u00ednseca e de m\u00e3o dupla: a arte, assim como esse campo de estudo, muitas vezes busca expressar os sentimentos mais profundos e abstratos, enquanto a psican\u00e1lise pode se aproveitar das imagens e arqu\u00e9tipos cimentados no imagin\u00e1rio popular por obras art\u00edsticas \u2013 alguns exemplos not\u00e1veis s\u00e3o a utiliza\u00e7\u00e3o de \u00c9dipo, Electra, Narciso (narcisismo) e Madame Bovary (bovarismo).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Adentrando a \u00e1rea da literatura, a rela\u00e7\u00e3o entre arte e psican\u00e1lise depende da palavra. Ambos os campos parecem estar sempre em busca das palavras certas para descrever um sentimento, um momento, exprimir o que se passa no inconsciente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em seu artigo <em>Literatura e psican\u00e1lise: reflex\u00f5es<\/em>, a professora da\u00a0FFLCH Yudith Rosenbaum descreve a rela\u00e7\u00e3o: \u201cTanto a psican\u00e1lise como a literatura falam de algo que escapa\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">pelas malhas da linguagem, mas que s\u00f3 nela pode ser flagrada\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Muitos autores recorrem \u00e0 literatura para tentar encontrar formas de descrever conceitos e express\u00f5es do inconsciente e de abstra\u00e7\u00f5es. Sigmund Freud, por exemplo, era conhecido por ser um leitor voraz de cl\u00e1ssicos, como Homero, Cervantes, Flaubert, Dostoi\u00e9vski e Zola, lista Rosenbaum.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na vis\u00e3o de alguns pesquisadores, Freud inaugurou a busca da compreens\u00e3o do inconsciente, muitas vezes suprimida na psiquiatria tradicional, mas que j\u00e1 se expressava de formas diversas nas artes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A vis\u00e3o do pr\u00f3prio psicanalista alem\u00e3o sobre a arte n\u00e3o era t\u00e3o amistosa. No artigo, a professora esclarece que Freud considerava a arte como um \u201cv\u00e9u\u201d criado pelos indiv\u00edduos para que pudessem recobrir a realidade, e que este v\u00e9u deveria ser desfeito pela psican\u00e1lise.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na obra de Lacan, esta rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 explorada. No universo da linguagem, segundo ele, nada ser\u00e1 comunicado de forma completa e estar\u00edamos em uma busca incessante por palavras que descrevam o que sentimos e pensamos. \u201cNesta cadeia infinita produziremos significa\u00e7\u00f5es, mas nunca poderemos nos apoderar de coisa alguma, sendo a palavra uma eterna aproxima\u00e7\u00e3o alusiva e esquiva com a tal Coisa perdida (Das Ding, para os lacanianos)\u201d, reflete Rosenbaum.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-37411\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Lacan.png\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Lacan.png 1000w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Lacan-360x360.png 360w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Lacan-768x768.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\"><em>Arte: Luana Franz\u00e3o\/Foto:\u00a0Giancarlo Botti<\/em><\/h6>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os frutos do desenvolvimento da psican\u00e1lise para a literatura s\u00e3o colhidos at\u00e9 hoje. A compreens\u00e3o da subjetividade e alteridade trazidas pelo campo se tornaram elementos essenciais para o desenvolvimento e an\u00e1lise de obras liter\u00e1rias, que ganharam camadas cada vez mais profundas.<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"color: #990099;\"><b>A psican\u00e1lise hoje<\/b><\/span><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A professora Mayra Rodrigues Gomes retoma uma quest\u00e3o que se tornou comum nas \u00faltimas d\u00e9cadas, que \u00e9 o termo \u201cpsican\u00e1lise da cultura\u201d. Trata-se de uma s\u00e9rie de conceitos vindos da psican\u00e1lise aplicado a situa\u00e7\u00f5es culturais de diversas comunidades, povos e ideologias.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ela cita dois autores muito conhecidos que promoviam esse tipo de an\u00e1lise. O primeiro \u00e9 o psicanalista Contardo Calligaris, morto recentemente, que possu\u00eda uma coluna no jornal <em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>. \u201cEle escrevia magnificamente bem, sempre fazendo a ponte entre o que acontecia no mundo e no cotidiano do nosso Brasil de mais relevante, correlacionando esses acontecimentos a conceitos psicanal\u00edticos\u201d, explica Gomes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar de n\u00e3o chegar a anunciar os conceitos de psican\u00e1lise, os leitores com certo conhecimento do campo conseguiam identificar essas situa\u00e7\u00f5es. \u201cEm termos de identidade e de representa\u00e7\u00e3o social, de identidade e constru\u00e7\u00e3o de subjetividade, era muito claro o aporte psicanal\u00edtico que Contardo trazia.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O segundo autor \u00e9 o fil\u00f3sofo esloveno Slavoj Zizek, que promove diversas an\u00e1lises de ocorr\u00eancias sociopol\u00edticas por meio de um instrumental psicanal\u00edtico \u2013 especialmente lacaniano.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A professora Rosana de Lima Soares aponta que a psican\u00e1lise coloca d\u00favidas e incertezas em um espa\u00e7o que sempre nos parece control\u00e1vel e previs\u00edvel. Em rela\u00e7\u00e3o aos processos amplos de comunica\u00e7\u00e3o, existem muitas vari\u00e1veis cujos efeitos nem sempre podemos prever.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c\u00c9 interessante pensar tamb\u00e9m quando olhamos exemplos da vida social e da esfera pol\u00edtica. Uma elei\u00e7\u00e3o como a que tivemos no Brasil, com resultados bastante tr\u00e1gicos, nos perguntamos: \u2018Como chegamos aqui? Como isso foi acontecer?\u2019. Alguma coisa escapou de certa ordem l\u00f3gica e controlada racionalmente. Aqui, a psican\u00e1lise pode contribuir para a compreens\u00e3o desse fen\u00f4meno, em que algo se rompeu no processo.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sobre o aumento nas buscas e no interesse pela terapia psicanal\u00edtica, para o professor Christian Dunker isso se deve tamb\u00e9m \u00e0 mudan\u00e7a do perfil dos terapeutas, que passaram a se identificar menos com a pr\u00e1tica \u201cdas elites para as elites\u201d. \u201cHoje temos movimentos de psican\u00e1lise em espa\u00e7os abertos, como o <em>Psican\u00e1lise na Pra\u00e7a Roosevelt<\/em>. Movimentos como esse tomaram o Brasil, e chegamos a encontrar cl\u00ednicas em pra\u00e7as p\u00fablicas, onde se tem pessoas escutando o sofrimento de outros.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mesmo n\u00e3o sendo o tratamento padr\u00e3o em consult\u00f3rio, a variedade das pr\u00e1ticas indica para o aumento e muta\u00e7\u00e3o nas conversas. H\u00e1 ainda a presen\u00e7a de psicanalistas em hospitais gerais e psiqui\u00e1tricos, nas varas de fam\u00edlias, escolas, empresas e corpora\u00e7\u00f5es. \u201cUsam a escuta e os conceitos talvez de uma forma mais humilde e mais dialogada, negociada com as realidades pr\u00f3prias de onde se est\u00e1 e onde se clinica\u201d, completa ele.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cFreud mostrou que a mente \u00e9 um produtor de poesia. Ele naturalizou a poesia. Freud\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">descobriu na pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o da mente os mecanismos atrav\u00e9s dos quais a arte provoca os seus efeitos, expedientes tais como a condensa\u00e7\u00e3o e o deslocamento, associadas depois por Lacan \u00e0 met\u00e1fora e \u00e0 meton\u00edmia\u201d, conclui Yudith Rosenbaum.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A professora Rosana Soares completa trazendo \u00e0 tona a reflex\u00e3o da nossa pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o por meio de um campo simb\u00f3lico. \u201cMais do que dados concretos e hist\u00f3ricos da realidade, a psican\u00e1lise diz respeito a esse lugar que nos antecede, nos define, mas que tamb\u00e9m \u00e9 transformado pelos grupos sociais.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A grande contribui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise seria, assim, o questionamento da raz\u00e3o como aquilo que determina as a\u00e7\u00f5es do sujeito nas a\u00e7\u00f5es do dia a dia, em seu trabalho, nas m\u00eddias e na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Ou seja, os sujeitos t\u00eam, sim, consci\u00eancia, mas tamb\u00e9m s\u00e3o determinados pelo inconsciente \u2013 proposto por Freud e depois retomado e desenvolvido por Lacan com o nome de fun\u00e7\u00e3o do inconsciente \u2013 o qual \u00e9 a maior contribui\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica ao pensamento contempor\u00e2neo.<\/span><\/p>\n<p>Nota: o t\u00edtulo original desta mat\u00e9ria era &#8220;Freud e Lacan explicam\u2026&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mais de um s\u00e9culo depois do surgimento da psican\u00e1lise, comemoramos n\u00e3o s\u00f3 seu fundador como tamb\u00e9m um de seus grandes int\u00e9rpretes. 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