{"id":43254,"date":"2023-05-10T21:17:44","date_gmt":"2023-05-11T00:17:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/?p=43254"},"modified":"2023-05-10T22:00:02","modified_gmt":"2023-05-11T01:00:02","slug":"subsolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2023\/05\/subsolo\/","title":{"rendered":"Subsolo"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"193\" height=\"24\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/cr\u00f4nica-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-36276\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">por <em>Damaris Lopes<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cama, guarda-roupa, escrivaninha, geladeira, fog\u00e3o, duas janelas e banheiro. Tudo isso compactado em cerca de 25 metros quadrados de uma quitinete em S\u00e3o Paulo. No an\u00fancio, a locadora enfatizava: \u201cim\u00f3vel ideal para estudantes da USP\u201d. Isso porque ele est\u00e1 localizado na Vila Indiana, uma regi\u00e3o ao lado de um dos port\u00f5es de acesso \u00e0 Universidade de S\u00e3o Paulo. Esse seria o destino de Guilherme: jovem negro, ex-estudante de escola p\u00fablica que percorreu mais de 3 mil quil\u00f4metros ao deixar Pa\u00e7o do Lumiar, cidadezinha no Maranh\u00e3o, para chegar \u00e0 capital do estado de S\u00e3o Paulo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gui, como \u00e9 chamado pelos amigos, poder\u00e1&nbsp; ser o primeiro de sua casa a ter um diploma de n\u00edvel superior \u2013 em uma excelente universidade, por sinal. Al\u00e9m disso, onde morava sabia que o destino n\u00e3o lhe reservava grandes oportunidades. Sua fam\u00edlia vivia com um sal\u00e1rio m\u00ednimo, assim como muitos moradores do Maranh\u00e3o, estado em que os habitantes t\u00eam a menor renda m\u00e9dia mensal do Brasil. Ent\u00e3o, no dia 26 de janeiro de 2022, quando chegou \u00e0 maior metr\u00f3pole do pa\u00eds, seus olhos deslumbravam a imensid\u00e3o de uma cidade com mais de 12 milh\u00f5es de habitantes. Esses mesmos olhos que jamais tinham visto outro estado brasileiro, olhos acostumados a observar uma vida pacata em uma cidade com menos de 150 mil pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Guilherme n\u00e3o se desesperou com tantos est\u00edmulos visuais e sonoros. Ele j\u00e1 havia planejado sua chegada e sabia exatamente para onde ir ao desembarcar em S\u00e3o Paulo: a quitinete na Vila Indiana. Para ele, que vinha com apenas duas malas, o lugar seria ideal, pois, como dizia no an\u00fancio, era todo mobiliado e feito para alunos da USP, assim como ele, que ingressou em 2021, mas que pelas restri\u00e7\u00f5es da pandemia s\u00f3 come\u00e7aria as aulas presenciais no ano seguinte. O local j\u00e1 estava garantido ap\u00f3s pagar o primeiro aluguel no valor de 870 reais, dinheiro que iria retirar mensalmente de sua bolsa de est\u00e1gio e do aux\u00edlio perman\u00eancia. O valor do aluguel era mais que o dobro do que sua fam\u00edlia pagava de financiamento na casa em que eles viviam no Maranh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSeja bem vindo, Gui\u201d, recepcionou a propriet\u00e1ria ao abrir o port\u00e3o do casar\u00e3o das quitinetes. Ela falava como estava feliz em recepcion\u00e1-lo, que assim como ele muitas pessoas que moravam ali tinham vindo de longe para estudar na USP. Novamente, os olhos de Guilherme se enchiam de empolga\u00e7\u00e3o, agora ele moraria sozinho e teria sua pr\u00f3pria casinha. A empolga\u00e7\u00e3o aumentou ao pisar pela primeira vez no local \u2013 o sol brilhava e aquecia a garagem e as plantas encostadas no muro. Aquele sol, aquelas plantas e aquele sorriso da mulher lembravam sua casa no Maranh\u00e3o. \u201cAqui em cima s\u00f3 temos umas 4 quitinetes, a sua fica um pouco ali para baixo\u201d, explicou a mulher.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme desciam&nbsp; um, dois, tr\u00eas, quatro lances de escadas, o calor nas paredes iluminadas pelo sol foi ficando para tr\u00e1s. \u201c\u00c9 aqui a sua, Gui. Como eu te mostrei nas fotos do an\u00fancio: cama, guarda roupa, escrivaninha, geladeira, fog\u00e3o, duas janelas e banheiro, tudo no jeito para voc\u00ea, fique a vontade, toma a sua chave, qualquer coisa voc\u00ea tem meu WhatsApp\u201d. O que o an\u00fancio n\u00e3o contava \u00e9 que as duas janelas n\u00e3o davam para lugar nenhum. Ao abri-las, o que se via era a parede do subsolo. Sem ventila\u00e7\u00e3o, sem sol, com cheiro de mofo e, de brinde um quarto vizinho repleto entulhos ao lado. Essas informa\u00e7\u00f5es&nbsp; n\u00e3o foram explicitadas no an\u00fancio, mas chamaram a aten\u00e7\u00e3o de Guilherme logo no primeiro momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Outra informa\u00e7\u00e3o que o jovem universit\u00e1rio n\u00e3o sabia era que Vila Indiana est\u00e1 localizada na Zona Oeste de S\u00e3o Paulo, na qual est\u00e3o os im\u00f3veis mais valorizados da cidade. O bairro de Pinheiros, vizinho de onde Guilherme estava morando, possui o metro quadrado mais caro da capital, custando mais de 11 mil reais. Al\u00e9m disso, moradias pr\u00f3ximas a esta\u00e7\u00f5es da linha Amarela do metr\u00f4 s\u00e3o, em m\u00e9dia, 4% mais caras do que aquelas mais distantes dos trilhos e a kitnet de Gui era justamente perto da esta\u00e7\u00e3o Butant\u00e3, a mais movimentada da regi\u00e3o pelos estudantes da USP. Outro agravante \u00e9 a pr\u00f3pria Universidade de S\u00e3o Paulo, pois a demanda por kitnets, studios e apartamentos \u00e9 alta, principalmente no come\u00e7o do ano quando chegam os novos alunos. E se a demanda \u00e9 alta os propriet\u00e1rios sabem que podem cobrar valores altos por espa\u00e7os min\u00fasculos e muitas vezes degradantes, como era o im\u00f3vel do Gui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Definitivamente, aquele lugar n\u00e3o tinha um ar de casinha, de recome\u00e7o, mas sim de enclausuramento. Os olhos cheios de esperan\u00e7a, agora, estavam cheios de tristeza. No dia 14 de mar\u00e7o de 2022, quando as aulas voltaram, Guilherme n\u00e3o sentiu a empolga\u00e7\u00e3o de viver a Universidade de S\u00e3o Paulo, pois a preocupa\u00e7\u00e3o com o lugar que morava, o alto custo de vida na capital e o desamparo financeiro por saber que sua fam\u00edlia n\u00e3o poderia ajud\u00e1-lo tomavam conta de sua mente. A pol\u00edtica de cotas na USP permitia que um jovem negro e nordestino adentrasse aos port\u00f5es que majoritariamente eram acessados pela elite paulista, mas naquele momento Gui percebeu que responder \u00e0s quest\u00f5es do vestibular n\u00e3o havia sido a etapa mais d\u00edficil. Complicado mesmo seria permanecer ali.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A situa\u00e7\u00e3o ainda se agravou quando os constantes problemas de sa\u00fade come\u00e7aram a abat\u00ea-lo. A falta de ventila\u00e7\u00e3o e o mofo que tomava conta das paredes do subsolo trouxeram recorrentes problemas respirat\u00f3rios. Mais uma vez o alto custo de morar na Zona Oeste de S\u00e3o Paulo o afetava, o pre\u00e7o dos medicamentos impossibilitava que ele pudesse fazer o tratamento como indicado pelo m\u00e9dico, por isso o ciclo de enfermidades parecia n\u00e3o acabar. Os problemas f\u00edsicos tamb\u00e9m atingiram o lado psicol\u00f3gico. Depress\u00e3o e ansiedade tamb\u00e9m passaram a habitar nos 25 metros quadrados da quitinete. \u201cPreciso me mudar daqui\u201d, concluiu Guilherme ap\u00f3s 3 meses vivendo em um im\u00f3vel que mais parecia um cativeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim do primeiro semestre de 2022, Gui come\u00e7ou a buscar incessantemente por uma nova moradia. Os problemas de sa\u00fade persistiam, o des\u00e2nimo pela vida degradante continuava coabitando dentro de sua mente. Mas, o desejo de permanecer e lutar pelo seu sonho fizeram com que ele conseguisse encontrar um lugar quase inexistente na regi\u00e3o mais cara de S\u00e3o Paulo: um quarto mobiliado dentro de uma casa por um valor menor que seu aluguel. Dessa vez, conferiu que as janelas garantissem alguma ventila\u00e7\u00e3o e que o sol aquecesse o local. Tudo certo. Agora, em vez de descer, Gui precisa subir alguns lances de escada para chegar ao seu quartinho. Chega de morar no subsolo da cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" data-id=\"43362\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Ilustra-Subsolo_configurada-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-43362\"\/><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o: CAIO OS <\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Damaris Lopes Cama, guarda-roupa, escrivaninha, geladeira, fog\u00e3o, duas janelas e banheiro. 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