{"id":47609,"date":"2026-10-02T13:03:51","date_gmt":"2026-10-02T16:03:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/?p=47609"},"modified":"2026-10-02T13:03:51","modified_gmt":"2026-10-02T16:03:51","slug":"funcoes-postumas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2026\/10\/funcoes-postumas\/","title":{"rendered":"Fun\u00e7\u00f5es p\u00f3stumas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Um infarto fulminante na Biblioteca Brasiliana levou \u00e0 reflex\u00e3o sobre a banaliza\u00e7\u00e3o da vida cotidiana<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"890\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/BRASILIANA-CMYK2-890x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-47610\" srcset=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/BRASILIANA-CMYK2-890x1024.jpg 890w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/BRASILIANA-CMYK2-313x360.jpg 313w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/BRASILIANA-CMYK2-768x883.jpg 768w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/BRASILIANA-CMYK2-1335x1536.jpg 1335w, https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/BRASILIANA-CMYK2-1781x2048.jpg 1781w\" sizes=\"auto, (max-width: 890px) 100vw, 890px\" \/><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o: Manu Trafane\/JC<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Rachel Mendes*<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu nunca tinha visto ningu\u00e9m morrendo\u201d relatou Jo\u00e3o Vilasboas. \u201cAt\u00e9 voc\u00ea pedir para me entrevistar, tenho passado todos os dias tentando esquecer aquela cena.\u201d Jo\u00e3o \u00e9 estudante de Jornalismo na USP. Entre os 17 depoimentos coletados para que se produzisse essa cr\u00f4nica, ele foi uma das 10 testemunhas oculares do infarto fulminante que tomou a vida de Seu Valentim no dia 22 de junho no Espa\u00e7o Brasiliana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela manh\u00e3, sua \u00faltima, Valentim acordou se sentindo mal. Segundo o relato dos funcion\u00e1rios que conversaram posteriormente com o filho dele, o senhor se recusou a repousar e ir ao hospital. Afinal, tinha uma fun\u00e7\u00e3o a cumprir naquele dia: era taxista e precisava transportar um grupo do aeroporto para uma palestra no anfiteatro do Espa\u00e7o. Seu Valentim tamb\u00e9m assistiu ao evento \u2014 uma vez que teria de transportar o grupo de volta, ele ficou, acompanhado pelo filho. Foi ao final da palestra, a ponto de poderem regressar \u00e0 casa, que o mal estar retornou. O filho tentou acalm\u00e1-lo. E ent\u00e3o o senhor se virou, se sentou e caiu. Um infarto fulminante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Houve o horror reservado aos olhos de Jo\u00e3o, dos passageiros de Seu Valentim, e da Guarda Universit\u00e1ria tentando ligar para a ambul\u00e2ncia. O resgate teria demorado a cumprir sua tarefa, de acordo com uma testemunha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cFizeram perguntas demais ao telefone. Estavam ocupados com outro protocolo, tinha um presidi\u00e1rio no HU.\u201d E ent\u00e3o houve a chegada da ambul\u00e2ncia, e com ela, cada tentativa de manter viva a vida que j\u00e1 se esvaiu. E houve ent\u00e3o um filho, no lamento da morte do pai. E no encerramento da como\u00e7\u00e3o coletiva, houve um corpo em frente \u00e0 Biblioteca Brasiliana, guardado pelo alum\u00ednio do saco t\u00e9rmico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Permaneceu ali por nove horas, de 13h at\u00e9 perto de 22h. Era fun\u00e7\u00e3o do Instituto M\u00e9dico Legal (IML) realizar a retirada. Jo\u00e3o interpretava as demoras do IML e da ambul\u00e2ncia como consequ\u00eancias de uma mesma causa: \u201cO mundo estava acontecendo, S\u00e3o Paulo n\u00e3o para. Mais uma fun\u00e7\u00e3o para cumprir naquele dia lotado. Uma ind\u00fastria da morte, cada um faz sua fun\u00e7\u00e3o e passa para o pr\u00f3ximo.\u201d Cumpriam suas fun\u00e7\u00f5es profissionais, a rotina diante da morte. O corriqueiro pr\u00e9-estabelecido nas tarefas do sofrimento s\u00fabito. Como no corpo ao ar livre por nove horas. Na fila, aguardando a remo\u00e7\u00e3o de alguns outros corpos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por nove horas, a movimenta\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida se enfraquecia de forma gradativa. Os participantes do evento puderam retornar ao aeroporto aproximadamente 18h. Restou o abatimento do filho \u2014 e dos demais familiares que chegaram depois \u2014 no aguardo do momento em que teriam o pai retirado de l\u00e1. Por nove horas, estudantes passaram pela biblioteca. N\u00e3o havia vida para o corpo ou protocolo para os transeuntes. Restou uma curiosidade t\u00edmida: um choque introvertido, secund\u00e1rio a se intrometer entre as tarefas pretendidas naquele dia, e que, assim que cumprida em uma fra\u00e7\u00e3o de segundo de espanto, daria lugar \u00e0s habituais import\u00e2ncias. E o dia seguia normal. \u201cCorpo jogado e as pessoas em volta, n\u00e3o tinha movimenta\u00e7\u00e3o estranha al\u00e9m dos familiares. O resto era a Universidade seguindo normalmente\u201d, relata Gustavo \u201cRadinha\u201d Radaelli, estudante de Jornalismo. Heloisa Ribeiro da Silva, aluna de Biblioteconomia, comenta que havia pessoas no sagu\u00e3o da Brasiliana. \u201cEstavam estudando normalmente, utilizando os bancos ou sentados no sof\u00e1, como se fosse um dia comum.\u201d Para o soci\u00f3logo alem\u00e3o Georg Simmel, esse estado de indiferen\u00e7a \u00e9 chamado de atitude blas\u00e9. Simmel formula sua teoria argumentando com base na vida metropolitana, em que s\u00e3o tantos os est\u00edmulos, acontecimentos e compromissos, que as rela\u00e7\u00f5es se tornam frias e o inesperado se perde em mais in\u00fameros inesperados acontecendo simultaneamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era cerca de 18h quando cheguei \u00e0 Biblioteca Brasiliana no dia 22 de Junho. Entrei na sala de estudos absorta em minhas demandas, me deparando com dezenas de estudantes no mesmo estado, concentrados em seus livros e trabalhos, acumulados no frenesi das aulas ap\u00f3s a greve. N\u00e3o notei o corpo at\u00e9 que sa\u00edsse de l\u00e1. E quando sa\u00ed, espantei-me primeiro com as luzes das viaturas da pol\u00edcia, apenas depois vi o corpo. E me choquei. Tive minha curiosidade instigada. Mas quero acreditar que, cumprindo tamb\u00e9m minha fun\u00e7\u00e3o, a prolonguei: na fun\u00e7\u00e3o de cronista. J\u00e1 aos vermes que roem as frias carnes dos cad\u00e1veres, questiono inutilmente o que me relatam da lembran\u00e7a de suas fun\u00e7\u00f5es p\u00f3stumas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*Editado por Carolina Mattos e Carolina Ziemer<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um infarto fulminante na Biblioteca Brasiliana levou \u00e0 reflex\u00e3o sobre a banaliza\u00e7\u00e3o da vida cotidiana Por Rachel Mendes* \u201cEu nunca tinha visto ningu\u00e9m \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2026\/10\/funcoes-postumas\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":104,"featured_media":47610,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6321,4147,3147],"tags":[280,3460,1948,6340],"class_list":["post-47609","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-6321","category-cronica","category-opiniao","tag-biblioteca-brasiliana","tag-cronica","tag-morte","tag-rachel-mendes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47609","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/104"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47609"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47609\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":47611,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47609\/revisions\/47611"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47610"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47609"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47609"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47609"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}