Estudantes da USP se mobilizam contra ato do candidato, que busca apoio entre jovens e aposta em discurso de endurecimento penal

Por Ana Julia Oliveira, Catarina Martines e Gabriela César
Na tarde do dia 16 de agosto, em frente à Faculdade de Direito (FD) da Universidade de São Paulo (USP), Renan Santos (Missão) lançou sua candidatura à Presidência da República. O candidato de 42 anos, que é também ex-aluno da FD, estreia na corrida ao Planalto pela primeira vez este ano e possui de 4 a 10% das intenções de voto, segundo pesquisas eleitorais tradicionais.
O ato previa reunir 2 mil pessoas e contou com a participação de candidatos do partido, como Arthur do Val (Missão) e Kim Kataguiri (Missão). As principais pautas abordadas foram a defesa do encarceramento em massa, o investimento em segurança pública e críticas aos candidatos presidenciáveis opositores, como Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Por que na FD?
Ingressante no curso de Direito da USP em 2003, Renan Santos não chegou a terminar a graduação. Mesmo assim, o candidato reforçou diversas vezes — durante o ato e nas redes sociais — a importância de lançar sua campanha em um lugar histórico como o Largo São Francisco. Segundo ele, o local foi pano de fundo para eventos que marcaram a história do Brasil, como a Revolução Constitucionalista de 1932, além de simbolizar o início de sua vida política.
Amanda Vettorazzo, coordenadora-geral da campanha presidencial do candidato, em entrevista exclusiva ao Jornal do Campus, reforçou esse posicionamento. “Escolhemos [a faculdade] porque o Renan estudou aqui e foi o despertar político dele. Então nada mais simbólico do que voltar onde ele se descobriu enquanto político”.
Para Rafael Tauil, cientista político e membro do grupo de pesquisa Pensamento e Política no Brasil da USP, a escolha do ato na FD está ligada à posição de seriedade e racionalidade que a instituição remete. A escolha, segundo o pesquisador, pode estar relacionada também à esfera de ordem que o curso de Direito relembra ao imaginário social. “Essa é uma das principais linhas de campanha dele, com a questão do encarceramento mais severo, inclusive, de prisões perpétuas e pena de morte em alguns casos”, destaca.
Tauil acredita que a escolha representa uma tentativa de Renan Santos de utilizar a instituição como instrumento de poder para um projeto político. Embora tenha sido um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), que se autodenomina como “combatentes da velha política desde 2014”, o pesquisador afirma que Santos adota discursos que contrariam princípios democráticos. “Em vez de pensar em democracia, pluralidade, direitos humanos e justiça social, que fazem parte da trajetória da FD, Renan Santos se apropria dessa tradição, cria um discurso que a sequestra e a transforma em uma simbologia”, aponta Tauil.

Durante a semana, alunos da USP protestaram contra o ato programado no domingo. Na quinta-feira (13), lideranças de movimentos sociais, como a União Nacional dos Estudante (UNE), a União da Juventude Socialista (UJS), a União Estadual dos Estudantes (UEE) e representantes dos sindicatos dos petroleiros e jornalistas se mobilizaram em oposição à presença do líder do MBL no espaço da faculdade.
Ao JC, a estudante Rita Lara, presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, da FD, comentou a reação dos estudantes à presença de Renan Santos no Largo São Francisco. O centro acadêmico também participou da organização do ato realizado em oposição ao lançamento da campanha do candidato no local. Para Rita, a escolha do espaço e o discurso utilizado por Santos representam uma ameaça à universidade pública e aos valores defendidos pelo movimento estudantil. “Ele está ativamente buscando prejudicar o nosso espaço de estudo, de luta e de construção social, com discursos que ativamente prejudicam a universidade pública e o desenvolvimento da ciência”.
“É um sequestro do passado: você está sequestrando o passado e o transformando na retórica que é mais conveniente.”
Rafael Tauil
Em suas redes sociais, o candidato divulgou um vídeo produzido por Inteligência Artificial (IA), no qual uma bandeira com os dizeres “Universidade Território Antifascista” é queimada. Dois dias antes do ato, ele publicou um vídeo expondo uma suposta ameaça de morte recebida por um aluno da FD. Na publicação, Santos afirma que costuma receber esse tipo de ameaça, e por isso, faz uso do colete à prova de balas — presente durante sua aparição no domingo.

O que o Missão propõe?
Durante a campanha, a frase “prendeu, matou” foi repetida inúmeras vezes pelos apoiadores e estampada em camisetas, como a de Arthur do Val, ex-deputado estadual e um dos fundadores do partido. O lema se refere à proposta de combate ao crime organizado de Renan Santos, que, caso eleito, promete implementar decretos de Garantia da Lei e da Ordem, a criação de um Estado de Defesa e a aplicação do “direito penal do inimigo”.

Teoria desenvolvida pelo jurista alemão Günther Jakobs, o direito penal do inimigo consiste em separar a legislação penal em duas versões diferentes: uma para cidadãos comuns, que cometem algum delito, e outra para aqueles considerados “inimigos do Estado”, como terroristas e membros de facções criminosas. No entanto, a proposta do candidato é contrária ao art. 5 da Constituição Federal, que afirma que “todos são iguais perante a lei”.
O apelo do partido para os jovens também foi uma marca do lançamento da campanha. Pedro Arthur, integrante do MBL de 19 anos, foi um dos nomes que falou na tarde de domingo. Pedro, ou simplesmente Pedrinho, como foi chamado ao palco, representou a voz de uma juventude supostamente desacreditada com a política tradicional. De acordo com o discurso, o MBL se apresenta como uma alternativa para recuperar o país por meio de uma nova geração de políticos.
Os integrantes do partido reforçaram a todo momento a intenção de se apresentarem enquanto uma terceira via. O integrante do MBL, Sérgio Renato da Silva Júnior, conhecido como Jota Jr, brincou: “Como diria Jorge Ben Jor: ‘você não gosta de mim, mas sua filha gosta’”.
O JC, composto pela Geração Z, foi atrás de representantes desse recorte geracional tão enaltecido na tarde. Um grupo de estudantes da FD que preferiu não se identificar afirmou que a proposta do candidato que mais chama a atenção para eles é sobre a segurança e o combate ao crime organizado. Eles ainda afirmaram não se sentirem representados pela atual gestão do XI de Agosto. “A minoria que é politizada [na FD] não permite um debate de ideias. […] Quem ganha [centro acadêmico] aqui é quem vai criticar mais a vinda do Michel Temer para cá”, declararam.
Outro aluno, que também preferiu não dar seu nome, cursa administração na Faculdade Getúlio Vargas (FGV) e falou para o JC que não sabe muito sobre as propostas do Renan e que estava ali porque ficou com “fomo”. Mesmo com o medo do partido em “ser cringe” diante das novas gerações que buscavam tanto agradar, Santos fechou o dia tocando violão, gaita e cantando o hino da campanha. Durante essa ação, recebida com entusiasmo por alguns dos apoiadores presentes, teve até grito pedindo para Kim Kataguiri “cantar Naruto” quando ele pegou o microfone.
*Editado por Alan Angeluci
