Um infarto fulminante na Biblioteca Brasiliana levou à reflexão sobre a banalização da vida cotidiana

Por Rachel Mendes*
“Eu nunca tinha visto ninguém morrendo” relatou João Vilasboas. “Até você pedir para me entrevistar, tenho passado todos os dias tentando esquecer aquela cena.” João é estudante de Jornalismo na USP. Entre os 17 depoimentos coletados para que se produzisse essa crônica, ele foi uma das 10 testemunhas oculares do infarto fulminante que tomou a vida de Seu Valentim no dia 22 de junho no Espaço Brasiliana.
Naquela manhã, sua última, Valentim acordou se sentindo mal. Segundo o relato dos funcionários que conversaram posteriormente com o filho dele, o senhor se recusou a repousar e ir ao hospital. Afinal, tinha uma função a cumprir naquele dia: era taxista e precisava transportar um grupo do aeroporto para uma palestra no anfiteatro do Espaço. Seu Valentim também assistiu ao evento — uma vez que teria de transportar o grupo de volta, ele ficou, acompanhado pelo filho. Foi ao final da palestra, a ponto de poderem regressar à casa, que o mal estar retornou. O filho tentou acalmá-lo. E então o senhor se virou, se sentou e caiu. Um infarto fulminante.
Houve o horror reservado aos olhos de João, dos passageiros de Seu Valentim, e da Guarda Universitária tentando ligar para a ambulância. O resgate teria demorado a cumprir sua tarefa, de acordo com uma testemunha.
“Fizeram perguntas demais ao telefone. Estavam ocupados com outro protocolo, tinha um presidiário no HU.” E então houve a chegada da ambulância, e com ela, cada tentativa de manter viva a vida que já se esvaiu. E houve então um filho, no lamento da morte do pai. E no encerramento da comoção coletiva, houve um corpo em frente à Biblioteca Brasiliana, guardado pelo alumínio do saco térmico.
Permaneceu ali por nove horas, de 13h até perto de 22h. Era função do Instituto Médico Legal (IML) realizar a retirada. João interpretava as demoras do IML e da ambulância como consequências de uma mesma causa: “O mundo estava acontecendo, São Paulo não para. Mais uma função para cumprir naquele dia lotado. Uma indústria da morte, cada um faz sua função e passa para o próximo.” Cumpriam suas funções profissionais, a rotina diante da morte. O corriqueiro pré-estabelecido nas tarefas do sofrimento súbito. Como no corpo ao ar livre por nove horas. Na fila, aguardando a remoção de alguns outros corpos.
Por nove horas, a movimentação mórbida se enfraquecia de forma gradativa. Os participantes do evento puderam retornar ao aeroporto aproximadamente 18h. Restou o abatimento do filho — e dos demais familiares que chegaram depois — no aguardo do momento em que teriam o pai retirado de lá. Por nove horas, estudantes passaram pela biblioteca. Não havia vida para o corpo ou protocolo para os transeuntes. Restou uma curiosidade tímida: um choque introvertido, secundário a se intrometer entre as tarefas pretendidas naquele dia, e que, assim que cumprida em uma fração de segundo de espanto, daria lugar às habituais importâncias. E o dia seguia normal. “Corpo jogado e as pessoas em volta, não tinha movimentação estranha além dos familiares. O resto era a Universidade seguindo normalmente”, relata Gustavo “Radinha” Radaelli, estudante de Jornalismo. Heloisa Ribeiro da Silva, aluna de Biblioteconomia, comenta que havia pessoas no saguão da Brasiliana. “Estavam estudando normalmente, utilizando os bancos ou sentados no sofá, como se fosse um dia comum.” Para o sociólogo alemão Georg Simmel, esse estado de indiferença é chamado de atitude blasé. Simmel formula sua teoria argumentando com base na vida metropolitana, em que são tantos os estímulos, acontecimentos e compromissos, que as relações se tornam frias e o inesperado se perde em mais inúmeros inesperados acontecendo simultaneamente.
Era cerca de 18h quando cheguei à Biblioteca Brasiliana no dia 22 de Junho. Entrei na sala de estudos absorta em minhas demandas, me deparando com dezenas de estudantes no mesmo estado, concentrados em seus livros e trabalhos, acumulados no frenesi das aulas após a greve. Não notei o corpo até que saísse de lá. E quando saí, espantei-me primeiro com as luzes das viaturas da polícia, apenas depois vi o corpo. E me choquei. Tive minha curiosidade instigada. Mas quero acreditar que, cumprindo também minha função, a prolonguei: na função de cronista. Já aos vermes que roem as frias carnes dos cadáveres, questiono inutilmente o que me relatam da lembrança de suas funções póstumas.
*Editado por Carolina Mattos e Carolina Ziemer
